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terça-feira, 10 de novembro de 2015

O Tatu Falante (alguns passos pro fim)


   Este querido blog se aproxima do fim.
   Ser influenciado é absolutamente normal. Somos influenciados a todo o momento na vida: por uma imagem, por um cheiro, por um roçar do gato, por um sorriso, por uma conversa, por um olhar inserido ali naquela conversa. Dissertar sobre as vantagens e desvantagens destas influências, visto como são várias e diferentes, nem acho ser necessário. Se ainda não refletiu sobre isso, está aí uma influência deste texto na sua vida.
   Há então a necessidade de se blindar? Como ser influenciado de tantas formas e em tal frequência e permanecer o mesmo?
   E, rápida e objetivamente, chego a meu ponto: NÃO se permanece o mesmo. Mesmo que você se esforce, tudo muda, e com toda razão! Ainda que seja angustiante mudar, ainda que doa um pouco o vazio de um velho hábito descartado, as coisas são volúveis. Elas podem, devem ser remexidas. Se seu dente não doesse às vezes, talvez você não se lembrasse de agradecer seus dentes sãos.
  O problema das pessoas é não enxergar que tudo que existe, existe em várias escalas: da pessoal à cósmica. Um sotaque que influencia no seu, um livro que influencia em como você age, um modo de encarar a vida que influencia em como você encara a sua. E olhar para trás e ver o quanto você evoluiu daquele instante em diante até o atual da sua vida.
  Na minha confusa escala pessoal, ler os primeiros textos deste blog é uma experiência curiosa... Ver o quanto minha escrita progrediu, ver o quanto eu mudei. E é incrível observar isso. Neste blog fui todo tipo de gente: do escritor transparente, postando textos de opinião, ao escritor distante e oculto, reduzindo suas postagens apenas a suas produções. Fui narrador personagem, fui narrador observador, fui poeta, fui confuso, fui objetivo. Fui homem, fui mulher. Falei sozinho, falei pra alguém específico, falei pra alguém invisível. E te digo uma coisa: de todas essas situações tirei proveito. A vantagem de experimentar é conhecer os lados positivos e negativos de cada um, o que torna muito mais simples optar por seguir um deles ou, se preferir, por todos. É confiar nas suas vivências ao invés de confiar nas impressões alheias da vida. Este sou eu, Gabriel Filpi, Tatu Falante, buscando viver e compreender todos os lados. E se aventurando Desenhista, Arquiteto, Fotógrafo, Musicista e, claro Escritor.
  Portanto, analisando o caminho até aqui, não cabe em mim a felicidade de ver que esse blog cumpriu com seu objetivo: Tatufalou em todos os níveis: Foi chulo, foi técnico. Ajudou-me a chegar numa sala com várias portas como a da Alice, sabendo que uma de suas escolhas pode levar-me ao País das Maravilhas ou a outro qualquer. E que magnífico saber que ajudou alguns leitores também, no meio desse processo. Que mais poderia querer?
   E não é com pesar, mas com um pouco daquela dor e angústia da mudança, que decidi, para todos efeitos dar adeus, (quem sabe um até logo) ao Tatu Falante no mês de dezembro de 2015, ainda que haja um carinho imenso da minha parte para este blog. Coisas precisam sair para coisas novas poderem entrar. E não há nisso drama. Há nisso vida.

Gratidão a todos os que um dia foram meus leitores! E a todos que vieram a mim comentar sobre algo que tinham lido! Saibam que isto importa muito para mim como pessoa, como artista. Amo vocês!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Óculos

  Ana é bela, mas acho que não é a essa conclusão que ela chega toda vez que contempla tristemente o próprio reflexo no espelho do guarda-roupas. Contempla, desanima-se e tira-me do rosto. Coloca-me de lado e pega a câmera fotográfica, esquecendo-se de mim por um tempo, até me usar novamente para postar todas as novas fotos online.
  Ela nunca foi extrovertida com os amigos; é quieta, uma boa pessoa - ao menos pessoalmente. As coisas que a vejo fazer quando senta-se ao computador não são coisas que uma boa pessoa faria. É como se ela usasse uma máscara que é retirada toda vez que Ana deixa de ser pessoa física para se tornar pessoa virtual.
  Hoje Ana saiu sem mim. - Isso pode ser perigoso para alguém com tantos - e tão sérios - problemas de  vista. Agora me lembro de uma conversa no chat com um tal de Patrick. Ele me pareceu bem galanteador, acho que a ela também.
  Ouço a chave do apartamento girar e Ana entra chorando e se joga na cama, esmurrando o pobre travesseiro. Não sei o que aconteceu lá fora,mas gostei de vê-la escrever - mesmo com todas as inexplicáveis abreviações - para o tal de Patrick: "Vc n presta. Nunca mais me procure d novo."


(...)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Língua

  Era uma vez a Língua.
  Ela morava desde sempre numa boca que era habitadas por muitos dentes. Porém, apesar de serem velhos conhecidos seus, não tinha amizade com nenhum deles. Quem se importava? Era boa o suficiente sozinha! Era a única que conseguia alcançar o céu da boca. Sem contar que ela não gostava nem um pouco de nenhum dos dentes.
  Haviam dentes de todos os estilos. Uns estavam caindo. Outros estavam brancos e lisos, quase perfeitos. Outros podres com buracos que permitiam ver por dentro deles. Outros amarelados.
  A língua, desde que se lembrava, tinha sido a porta voz dos dentes. O Ciso, quando queria dizer algo ao Incisivo, gritava:
  -Língua! Venha cá!!! Preciso que você fale algo ao Incisivo para mim! É muito longe até lá!
 E era ela quem dava o recado. Por muito tempo, deu os recados com esmero e trabalho duro. Depois os dentes começaram a abusar; por ela estar sempre levando e trazendo recados, eles mandavam cada vez mais e mais. O Pré-Molar gritava:
  -Língua! Venha rápido, sua inútil! Fale lá com o Molar que ele não serve para nada!
  Ela ia, como que escrava. O Molar respondia:
  -Fale com o Pré-Molar que ele só tem "Pré" por ele pré-parar a comida que chega para mim!
  -Fale para ele, Língua, que eu estou mais à frente, então sou mais importante!
  -Pois diga para ele, Língua, que sou eu quem trituro a comida de verdade!
  -Então, Língua, diga para ele que sou eu quem recebe mais escovação então...
  Então a Língua reparara que eles estavam um ao lado do outro e podiam muito bem dizer um ao outro essas coisas. Se afastou, chateada.
  Estava começando a se cansar de ser garota de recados.
  Consequentemente, a Língua sabia tudo da vida de todos os dentes. Sabia, por exemplo que o Canino odiava o grupinho dos Molares Inferiores. Sabia da grande amizade entre o Pré-Molar Inferior com o Incisivo Superior e isso era complicado, pois um morava embaixo do outro e ainda assim, só se falavam por intermédio dá língua
  Como dito, todos os dentes começaram a abusar da pobre Língua.
  Então ela se rebelou e decidiu parar de ser "a pobre Língua". Começou então a espalhar de dente em dente algum podre do outro. Começou a fofocar como louca, na intenção de ver se eles se matavam ou se desafiavam para um duelo em que restasse só ela.
  -Sabe, Incisivo, o Pré-Molar disse que você é falso e que ele na verdade não gosta nem um pouco de você... - foi até o Pré-Molar e disse:
  -Pré-Molar! Você não imagina o que o Incisivo anda comentando de você! Disse que você é um amigo muito falso!
  Envenenou assim, a amizade de todos os amigos e ajudou a piorar o ódio entre os inimigos. Só não pensou em uma coisa: Estaria no meio de fogo cruzado.
  Depois que todos os dentes estavam com raiva de todos, ela se aquietou e sorriu, esperando. Logo começaram a gritar entre si. Que bom! Agora não passaria mais por garota de recados.
  Mas, durante a noite, quando tentou dormir, ela não conseguiu. Todos os dentes ainda estavam gritando e discutindo.
  -Pré-Molar!!! Você é um falso!!! Nunca mais converse comigo!
  -Não conversarei mesmo com você depois do que falou de mim!
  -Não disse nada sobre você!
  -Disse sim! A Língua me contou!
  -Pois a também Língua me contou que você me odeia!
  Com os que já eram inimigos não estava pior. O Canino enfrentava sozinho uma discussão com todos os Molares Inferiores, não era uma proeza muito grande, visto que eles não era lá muito inteligentes:
  -Seus inúteis! Simplesmente não prestam pra nada!
  -O que foi que você disse?
  -É, repita!
  -Que não prestam para absolutamente nada!
  -O quê?
  -É, repita!
  -Além de tudo são uns burros!
  -O quê?
  -É, repita!
  -Ah, vão catar as suas cáries, já que estão cheios delas!
  -O quê?
  -É, repita!
  -A Língua me disse tudo! Me disse que vocês estavam querendo brigar!!!
  -O quê?
  -É, repita! Espere! Ela disse isso a nós também!
  E assim, os olhares de todos os dentes foram dirigidos à Língua.
  -Foi você! - disseram - Você nos envenenou! Iremos te tirar daqui!
  A Língua sorriu e disse:
  -Vocês não conseguirão.
  -Você quer apostar?
  E os dentes morderam e trituraram a Língua.

E era uma vez a Língua.

(...)