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sábado, 3 de dezembro de 2016

Redemoinho


Me esforço em tirar a última peça dessa roupa que me prende.
A gente seguindo deve ser algo quase cômico
Tanto tropeço!
Um mais denso que o outro.
Até a mais completa e nua
queda.

O arrependimento rasgou a última peça.
Mas mãos se estendem pra te mostrar que não está só.
Um dos grandes benefícios de cair
é que a vista do chão é uma vista
completamente
nua.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O Tatu Falante (alguns passos pro fim)


   Este querido blog se aproxima do fim.
   Ser influenciado é absolutamente normal. Somos influenciados a todo o momento na vida: por uma imagem, por um cheiro, por um roçar do gato, por um sorriso, por uma conversa, por um olhar inserido ali naquela conversa. Dissertar sobre as vantagens e desvantagens destas influências, visto como são várias e diferentes, nem acho ser necessário. Se ainda não refletiu sobre isso, está aí uma influência deste texto na sua vida.
   Há então a necessidade de se blindar? Como ser influenciado de tantas formas e em tal frequência e permanecer o mesmo?
   E, rápida e objetivamente, chego a meu ponto: NÃO se permanece o mesmo. Mesmo que você se esforce, tudo muda, e com toda razão! Ainda que seja angustiante mudar, ainda que doa um pouco o vazio de um velho hábito descartado, as coisas são volúveis. Elas podem, devem ser remexidas. Se seu dente não doesse às vezes, talvez você não se lembrasse de agradecer seus dentes sãos.
  O problema das pessoas é não enxergar que tudo que existe, existe em várias escalas: da pessoal à cósmica. Um sotaque que influencia no seu, um livro que influencia em como você age, um modo de encarar a vida que influencia em como você encara a sua. E olhar para trás e ver o quanto você evoluiu daquele instante em diante até o atual da sua vida.
  Na minha confusa escala pessoal, ler os primeiros textos deste blog é uma experiência curiosa... Ver o quanto minha escrita progrediu, ver o quanto eu mudei. E é incrível observar isso. Neste blog fui todo tipo de gente: do escritor transparente, postando textos de opinião, ao escritor distante e oculto, reduzindo suas postagens apenas a suas produções. Fui narrador personagem, fui narrador observador, fui poeta, fui confuso, fui objetivo. Fui homem, fui mulher. Falei sozinho, falei pra alguém específico, falei pra alguém invisível. E te digo uma coisa: de todas essas situações tirei proveito. A vantagem de experimentar é conhecer os lados positivos e negativos de cada um, o que torna muito mais simples optar por seguir um deles ou, se preferir, por todos. É confiar nas suas vivências ao invés de confiar nas impressões alheias da vida. Este sou eu, Gabriel Filpi, Tatu Falante, buscando viver e compreender todos os lados. E se aventurando Desenhista, Arquiteto, Fotógrafo, Musicista e, claro Escritor.
  Portanto, analisando o caminho até aqui, não cabe em mim a felicidade de ver que esse blog cumpriu com seu objetivo: Tatufalou em todos os níveis: Foi chulo, foi técnico. Ajudou-me a chegar numa sala com várias portas como a da Alice, sabendo que uma de suas escolhas pode levar-me ao País das Maravilhas ou a outro qualquer. E que magnífico saber que ajudou alguns leitores também, no meio desse processo. Que mais poderia querer?
   E não é com pesar, mas com um pouco daquela dor e angústia da mudança, que decidi, para todos efeitos dar adeus, (quem sabe um até logo) ao Tatu Falante no mês de dezembro de 2015, ainda que haja um carinho imenso da minha parte para este blog. Coisas precisam sair para coisas novas poderem entrar. E não há nisso drama. Há nisso vida.

Gratidão a todos os que um dia foram meus leitores! E a todos que vieram a mim comentar sobre algo que tinham lido! Saibam que isto importa muito para mim como pessoa, como artista. Amo vocês!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Ressurreição

foto autoral: Serro/MG

O perdão desfaz a eternidade,
o brusco ruído da vida,
teimando em ir na contramão. -

- ainda que ame a rotina que me ensinaste
as belezas de outrora ainda me enchem os olhos
e a vida torna a resistir na contramão.

Pois nada justificaria um poema morto
numa pouca caneca de "sou louco por você"
Nada.
E enquanto o poema morre, na lua minguante do céu de setembro,
o ansioso eu novo retoca e aponta
ali em meio a tantas cinzas.

Não sei se o mais estranho
é fitar tua janela e ver que você definitivamente mudou
ou fitá-la com meus olhos e que eu inelutavelmente mudei.

E o olhar, desfibrilador universal,
o seu chocando com o meu o dela o nosso
olhar
de todos de vértice de tudo.

domingo, 13 de setembro de 2015

Hoje sou um a mais

Hoje sou um a mais
uma lua Nova.
Tão opaca, mitigada e sozinha
Sem vrilho próprio.
Tola tola tola.

Um poeta experimental.
Inseguro.
Um maldito coração.
Carregando a suor e lágrimas
Lingotes de um Sonho.
Pois um homem é pequeno pra carregar algo de tão grandes proporções.
Hoje sou mãe pobre.
Sou a que aguarda ansiosa
A cirurgia não esterilizada
Que decidiram aplicar no seu filho.
Sou o ser humano abatido
A prostituir carona nas estradas.
O advogado prático
Que não vê sentido na poesia.
Índia forte e humana
Rendida por forças policiais.
Hoje sou um a mais.
E isso não faz de mim mais ou menos.
Faz de mim parte do todo.
Meus desafios serão do tamanho que meu sonho aguentar.
Ouvindo os melodiosos ruídos da vida ganharei o mundo.
Haverá complacência e altruísmo.
Pois hoje sou um
Ser humano a mais.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quando Desci pra Cá

Quando desci pra cá,
Vi uma fonte que bravejava som.
Vi um horizonte multicor
ah, que beleza, ah que beleza.

Quando desci pra cá não signifiquei muita coisa, mas.
Tinha jogo de cintura pouco. Pra lidar com eles.
Metas que não se bastavam. Ou se bastavam demais.
E haveria de ter metas? Teria que?
Estive confuso
Quando desci pra cá.

Culpa de quem eu não decorar minhas palavras?
Culpa de quem meu sangue corroer suas noções?
                           - pois sangro palavras.
Culpa de quem se eu surgi e incomodei?
Culpa de quem eu ter de reformular as frases?
                           - que esse mundo pede isso.

Quando desci pra cá, 
Mantive-me quieto,
Falei às vezes, quando se dirigiram a mim.
E mantive-me quieto. 
Pra não gastar o jogo de cintura, que não tenho muito.

De resto, fico aqui, 
brincando de montar versos.

Só não me julgue sem sonhos.
É que tenho muitos.
Que eu suei cada dia, atrás deles.
Quando desci pra cá.

(reticências)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Incomunicação desabada

Fabiano Alvez em O Adorável Desastre
Mas, diga-me.
Quando foi que as coisas já feitas começaram a fazer tanto barulho
que nem posso ouvir o que tenho a dizer?
Quando foi que a saudade bateu forte a ponto de me desvanecer?
Saudade de algo que nem tive...

É porque as coisas vieram fáceis?
Por eu não ter tido muito tempo de sonhar?
Tive...

Suprimo um choro, suspirando.
O mundo de repente ficou tão embaçado.

Estar aqui passa a não fazer sentido.
Olhar além também não.
O amor à vida me consome, ainda assim.

Mas que vida eu amo? Nem acredito no que tenho a dizer...
As coisas já feitas, pelos de antes
barulharam tanto que me confundiram.
O que tenho a dizer não chegou até mim.

sábado, 7 de março de 2015

Gizá

A voz dela era sacudida.
Era ambígua em sua mais notória repiquitude.
E era demônio.
Tencionava ir além da conta, e não voltar.
Como um Gizá.

E, demônio, era além.
Era todos e todos éramos ela.
Mais que isso, éramos todos diluídos
Na mesma densa solução.

Os tendões nossos se destinavam.
Ao céu!
E tensionavam.
Ao chão!
E eram VERGONHOSOS querida.
E, balbuciados, os desejos nossos
DECEPCIONAVAM

E ela vinha.
E sacudia o mundo com um universo colorido em caleidoscópio.
Estado efêmero
mudança rápida
ela vinha
vinha vinha vinha vinha
e nos levava a ter certeza de que após a passagem dela tudo voltaria a ser,
simplesmente
como era antes.

(...)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Quando fomos, já nem sabíamos quem éramos

Claude Monet
Aparentasse ou não, sentia-se consumido de estranha indignação.
Quando pôs-se a olhar, todo o fato lhe doeu.
E se consumiu de merecida indignação.
Que lhe bastasse o sorriso nos lábios de uma criança!
Mas não: ousava surgir num novo âmbito da descoberta pessoal.
Que, quando quis se difratar em vários, sendo ainda o mesmo,
foi avisado do perigo de ser tudo o que quisesse ser.
Aí se consumiu de estridente indignação.
E suas palavras se fundiram em outras tantas...!
Que quando se difratou, ele não pensou.
Mas, no sim ou no não, seria vários.
e não sabia do perigo de não voltar a ser quem era antes.

Aparentasse ou não, ele lutava com e contra indignação.
Subindo mais e mais níveis.
Que, na verdade, nem mesmo importava se
aparentasse ou não.
E subindo, foi pensando.
E, no topo, nada mais havia a desconstruir.
E era só horizonte à sua frente.
E na subida, se cansou. Suou. 
E suas lágrimas rolaram desalmadas.

Aparentasse ou não, agora era pó.
Já consumido de obsoleta indignação.
E quando revirava e revirava na leve cama do ar, 
viu que sua intenção nunca fora muito metódica.
E que sua vida tinha ficado no meio de tudo, 
difratada como luz.
E se consumiu.
Da mais sublime indignação.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

COMPLITUDE

Espuma de nuvem.
Canto de corredeira.
Borboleta no vento.

É a satisfação do desafio cumprido.
E a conexão com o início de tudo.
A imensidão projetada há milhões de anos.
A vida que se renova!

Nada como sentir-se pequeno
por ser parte tão ínfima
e imenso
por apenas ser parte desse todo.

É a face feminina de Deus.
Estar aqui.
Homem e homem.
Ser e ser.
Espinho e areia.

Senta e sinta!
O sol que te vive!
A lua que te beija!
A estrela que te infinita!
A montanha que te agiganta!

Ser uma alma que se permite absorver
tudo de bom que flui.
E que, rastejando como um bebê,
começa a ver a conexão das coisas.
Agora, o tempo dilui o som do rio.

(...)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sol no rosto


Primavera chegou com chuva e promessa de futuro bom,
mas logo foice e mal dela se lembra o sertão.
Uns amores solúveis nasceram ao misturar na água.
mas logo morreram, de efervescentes que são.

Os bem-te-vis daqui cresceram, reparou?
Devem estar bebendo água de fonte mutante.
Eu, não, fiquei foi mais magro.
Foi depois de tanto tentar entender a vida.

Um cuidado especial pras moças congeladas
que não vivem mais, por medo do amanhã.
Congelado também minha coragem.
Mas faz calor, logo vai derreter.

Só sei que estou feliz. Por demais.
A primavera não mostra os dentes.
É que nós todos amamos amar.
E eu é que não faço mais promessa de chuva.
Tá bom de tomar um pouco da água dos bem-te-vis.

(...)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Retrato de uma tarde não planejada

O vento veio forte hoje.
Mentindo chuva.
Lambeu a água, a folha, meu cabelo,
o desenho, a alma, o céu inteiro.
Há doçura em estar só.
Sabiá cantou, pica-pau bicou.
E até as fadas vieram brincar.

É júbilo no meio da seca.
Feito só de esperanças,
nuvens ao longe, galhos fracos
e da risada das crianças.

(...)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cor

Fotografia por Diego Sanches
A dança deixa fitas
que duram quatro estações
e o menino descobre nelas
leveza e cor.

E dançando-as no ar,
impelido do sentir onipresente,
tem vislumbre de possibilidade
de sorrir seu riso.

E dançando-as no ar,
como vento de Agosto,
observa e espera,
sorri e irradia.

E é calor e esperança
assim que se verbaliza
no quente sol matinal
agraciado pelo batuque.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Ilustração de Karla Ruas
Vem maré alta.
Ele nada, cansa os braços.
Muda o estilo, se adéqua ao mar...
Talvez dê conta de mais um pouco.

Lírica sofrida. Autoflagelação.
Agora entende o que disse um amigo
sobre se rasgar constantemente.
Mais uma braçada.
Ri-se por ter usado o mar tantas vezes
 como metáfora
e agora agonizar nele

Mais uma braçada.
A vida é cruel. Exige força que a gente não tem.
Se ao menos eu fosse corajoso a ponto de conseguir desistir...!
Virão marés ainda mais altas.

Pessimista essa visão.
Mas será tão bom olhar para trás
e ver que a maré que enfrentei ontem é tão minúscula!

É efêmero. Tudo. Cruel e efêmero.
Só nos prepara pra aguentar ainda mais
e nos faz mais inquietos por fazer o bem.


Mais uma braçada.

(...)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Virtual

Ilustração de Guilherme Fonseca
Arqueada, ela vem seguindo.
Contorcendo-se na própria pele.
Afogando-se nos próprios cabelos.
O cansaço já nem incomoda tanto
e o burburinho não para.

Arqueadas, suas sobrancelhas cuidadas
perguntam a nós "como?"
Cabisbaixa, nossa geração não responde,
contorcendo-se numa lógica furada.

Arqueadas, as nuvens observam
o clima, o ofício e a ofensa.
O dilúvio comportamental pasma
uma sociedade estável e doente.

Arqueado, o corpo dela permanece,
pausado, sem conexão.
Agora tudo é simples.
Agora não há um só vagão.


domingo, 25 de maio de 2014

Olho Preto

Tudo parece nublado.
E o sopro é só desabafo.
Ferida que reabre imponentemente.


Mixagem de covardia, medo e destino.
Paciência que não há.
Desestabiliza no voo as penas
de pássaro horrendo.

Versos que serão esquecidos se escrevem pra lembrar
da luta que só há de ser vencida
quando a túnica do orgulho se rasgar.
E relembram distopicamente
que as coisas acontecem por um motivo.

sábado, 19 de abril de 2014

Minguante

Chora.
Borra a maquiagem empoeirada.
Cadê sua cor? Onde estão os pasquins?
Uma superficialidade bruta que enoja!

Braços fortes, chora.
Braços flácidos, chora.
Chora tanto, ele, ela!
Comendo um caviar de fel, coitados.

Tá encardido, encarquilhado.
Um sopro de meditação falha.
Simplicidade indecifrável nessa solidão imunda.
Né não? Não?
Caio chorando.

De promotor a réu. De holofote a apagão.
De inferno a céu. De plateia a atração.
Julgando todos os que choram
numa iludida presunção
de quem ainda não viu nada da vida.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Casamento de Viúva

Deixe-me.
Que gostar de sol
Na mesma intensidade que gostar de chuva
É quase ser bissexual.

Não é todo ser que se embebeda se sol
Nem é todo ser que se envereda em si.
Lapso de loucura, Paulo.
Momento que passou e se foi.

Sou bravo
Sou forte
Sou filho da morte.
Sou o que há de ser
ingerido, que sorte!
E assim sou quase vivo,
Juca Pirama

Dos ventos que sopraram na cara do poeta
Me restou um
Que disse que sou louco.
Pois gostar de sol
E gostar de chuva
É gostar de opostos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Lembremo-nos

A suavidade dessa existência
Está borriscada, em nós.
Que guardamos dentro d'agente
a mulher-fuligem, forte,
o homem-pedra, suado,
o menino deixado. À sorte.
a menina deixada. De lado.

Foi um grito grandioso
Carimbado nos grilhões de ouro
Que prendem o governo governante.

Sisal e aipim;
o resumo daquela vida bruta
e simples de suor no rosto.
Pau a pique.
Pau à lenha.
Pau em todos, se convenha.

Antepassados.
Dentro desses prédios existem veias
Onde corre o sangue dos desgraçados.
A venda aqui é viável, ali é viávore.
Vi a árvore que passou
de broto a toco.
Pode colocar
Sal a gosto.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Ato Opaco

É paz? – Ele pensa
Essa confusão, essa confluência enigmática que perturba a alma...
Não pode ser paz.
É indecisão, então?
O mesmo fatídico fato que sempre se repete...
Que sempre insiste em se manifestar...

Desvão. Em silêncio, ele cai.
Um mundo por seres obscuros habitado.
E o assombram todos de uma vez
Monstros que desde o início acompanham a humanidade.
Medo, moça, isso que ele sente.
Por isso a luz turva. Pra esconder.

A máscara de Arlequim o cobre a metade do rosto
A de Jekyll cobre a outra.
Numa escuridão burtônica
O moço se dissolve e a aquarela perde a cor.

Do mirante submerso olha o horizonte das memórias.
Ainda vale à pena?
Shhhhhh…
Be quiet, my dear, be quiet.

Pois isso nunca vai mudar, vai?


(...)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Vaso

Quebra-se aqui o vaso dos nossos medos
que explodem disformes
que vêm todos de uma vez
sem pontuação sem pausa
sem dar tempo pra gente pensar
rápidas dão rasteiras deliciosas de se ver
a vaca deu seu leite a preguiça se pendurou
o gato deu seu pulo a mãe os passarinhos alimentou
e de que adiantou de que adiantou
o mundo permanece nesse mesmo caos
os bules continuam a guardar seus chás
no meio dessa desordem
pego o seu e o meu interior a murmurar palavras malucas
únicas
suas minhas nossas
palavras derivadas tão somente de nós próprios
e de que adianta de que adianta
ninguém ouve as palavras além de nós
e explodem novamente os medos
não deveriam
mas explodem pesados e degradantes do nosso maço de ideias
que são consumidas uma a uma
até que sem ar sem conseguir parar
acabam.