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terça-feira, 10 de novembro de 2015

O Tatu Falante (alguns passos pro fim)


   Este querido blog se aproxima do fim.
   Ser influenciado é absolutamente normal. Somos influenciados a todo o momento na vida: por uma imagem, por um cheiro, por um roçar do gato, por um sorriso, por uma conversa, por um olhar inserido ali naquela conversa. Dissertar sobre as vantagens e desvantagens destas influências, visto como são várias e diferentes, nem acho ser necessário. Se ainda não refletiu sobre isso, está aí uma influência deste texto na sua vida.
   Há então a necessidade de se blindar? Como ser influenciado de tantas formas e em tal frequência e permanecer o mesmo?
   E, rápida e objetivamente, chego a meu ponto: NÃO se permanece o mesmo. Mesmo que você se esforce, tudo muda, e com toda razão! Ainda que seja angustiante mudar, ainda que doa um pouco o vazio de um velho hábito descartado, as coisas são volúveis. Elas podem, devem ser remexidas. Se seu dente não doesse às vezes, talvez você não se lembrasse de agradecer seus dentes sãos.
  O problema das pessoas é não enxergar que tudo que existe, existe em várias escalas: da pessoal à cósmica. Um sotaque que influencia no seu, um livro que influencia em como você age, um modo de encarar a vida que influencia em como você encara a sua. E olhar para trás e ver o quanto você evoluiu daquele instante em diante até o atual da sua vida.
  Na minha confusa escala pessoal, ler os primeiros textos deste blog é uma experiência curiosa... Ver o quanto minha escrita progrediu, ver o quanto eu mudei. E é incrível observar isso. Neste blog fui todo tipo de gente: do escritor transparente, postando textos de opinião, ao escritor distante e oculto, reduzindo suas postagens apenas a suas produções. Fui narrador personagem, fui narrador observador, fui poeta, fui confuso, fui objetivo. Fui homem, fui mulher. Falei sozinho, falei pra alguém específico, falei pra alguém invisível. E te digo uma coisa: de todas essas situações tirei proveito. A vantagem de experimentar é conhecer os lados positivos e negativos de cada um, o que torna muito mais simples optar por seguir um deles ou, se preferir, por todos. É confiar nas suas vivências ao invés de confiar nas impressões alheias da vida. Este sou eu, Gabriel Filpi, Tatu Falante, buscando viver e compreender todos os lados. E se aventurando Desenhista, Arquiteto, Fotógrafo, Musicista e, claro Escritor.
  Portanto, analisando o caminho até aqui, não cabe em mim a felicidade de ver que esse blog cumpriu com seu objetivo: Tatufalou em todos os níveis: Foi chulo, foi técnico. Ajudou-me a chegar numa sala com várias portas como a da Alice, sabendo que uma de suas escolhas pode levar-me ao País das Maravilhas ou a outro qualquer. E que magnífico saber que ajudou alguns leitores também, no meio desse processo. Que mais poderia querer?
   E não é com pesar, mas com um pouco daquela dor e angústia da mudança, que decidi, para todos efeitos dar adeus, (quem sabe um até logo) ao Tatu Falante no mês de dezembro de 2015, ainda que haja um carinho imenso da minha parte para este blog. Coisas precisam sair para coisas novas poderem entrar. E não há nisso drama. Há nisso vida.

Gratidão a todos os que um dia foram meus leitores! E a todos que vieram a mim comentar sobre algo que tinham lido! Saibam que isto importa muito para mim como pessoa, como artista. Amo vocês!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Amores de Praça II

A despeito de toda rotina, que esmaga em conveniências; além de todos os carros que correm desembestados e dos pobres cães de rua, assustadiços e desavisados, está ela. Seguindo uma rua desconhecida.
A magia daquela rua não é apenas o fato de ser desconhecida. A magia daquele momento está em ser momento. As pessoas já correm e trasladam dum ponto a outro na cidade. Contudo a manhã nasce, lenta e sem pressa. Um raio transversal de luz atravessa a fria rua; encontrou alguma brecha entre os tijolos e o concreto. A luz atravessa a moça.
Estalar de dedos. Latido de cão. Esfregar de olhos. Bocejo.
Ela anda em paz. Está satisfeita, está plena. E olha para os lados sem compreender muito bem a ansiedade e insatisfação geral.
No fim – não veem? – desta rua há uma praça. Há de ser. Uma praça. Nova ou conhecida, há de ser. Esta rua tem jeito de rua que leva a praças, tortuosa como é. Incomoda-a ruas retas! Dão possibilidade de caminhar rápido de mais e os detalhes se passavam sem que visse direito. Essa rua, com sua leve curva, com certeza esconde, no seu fim uma praça bem aconchegante. Na praça há de ter um banco e gente, fazendo algo qualquer. E a magia está naquele raio de luz.
Se a rua não tiver fim, não haverá frustração; a simples perspectiva de uma praça a satisfaz. Na verdade, o som dos seus passos basta. Algum passarinho há de ter.
As pessoas estalam os dedos latem esfregam os olhos bocejam. E correm e correm, perseguindo sonhos que não lhes caía muito bem no ombro.
Não é que ela não tinha sonhos. É que os sonhos dela eram um bocado mais simples. A perspectiva fresca e doce de uma praça era suficiente para que pousasse um pé na frente do outro e seguisse seu caminho.

(...)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Moça que Tentava Amar o Cotidiano


  Sei. Sei que ontem eu não estava bem disposta, querido. Perdão. É a rotina, a rotina faz dessas coizas comigo, você sabe. Além do mais, eu não aguentava mais ouvir nem sequer o som dos seus dentes arrancando uma mordida daquela maçã. Não gosto de rotina, mas acho que gosto das coizas rotineiras. Da magia de se encontrar às vezes um cacoete no rosto de alguém que me lembre um sorrizo seu. Ou de ver uma plantinha teimoza em nascer e se desenvolver na beirada de um meio-fio qualquer. Ou do cheiro que têm os perfumes baratos das moças que bezuntam o cabelo de creme pra sair de manhã cedo. Juro, por Deus, que gosto dessas coizinhas. Me passa a salada? Obrigada.
  Gosto dessas coizinhas, mas não gosto, ah, isso não, dessas nossas conversas no almoço. Agora mezmo, falando, estou sopitando de vontade de lhe dar um tapa, por estar me escutando tão atentamente. Me lembra aquele trouxa do seu irmão, roubando o remédio da estante do seu pai. Não, não, meu bem, desculpe, desculpe Não mais falarei nele. É comigo mezma que tenho vontade de digladiar, eu, com essa voz de taquara rachada. Perdão.
  Daqui pra frente, querido, prometo que tudo vai mudar. Os olhos meus hoje amanheceram tão brilhozos! Quando te contei, amor, dos olhares que testemunhei naquela praça, os sorrizos e gentilezas. As pessoas todas num ímpeto gloriozo de fazer o mundo um lugar melhor! Parecia que estava uma aura leve e perfumada ali. Os índios chegaram pra vender aquelas todas ervas que eu fui olhar depois. De lá, avistei pessoas reunidas em torno de alguma novidade, do outro lado da praça, quando fui ver eram homens pintados de prateado, trabalhando de estátuas vivas. Uma mãe deu uma moeda e um pequeno menino depositou com cuidado na caixinha prateada do homem prateado, vestido de cangaceiro. E ele fez uma festa quando a estátua fez seus movimentos esdrúxulos...! Foi bom de se ver.
  Não quero mais contar-te do meu dia. Eu já estou suficientemente cheia de mim mesma e da minha companhia. Me recordo do dia em que eu comprei um, e só um, giz de cera vermelho e dezenhei um retrato seu, rabiscadinho. Seu sorrizo naquele dia foi bonito de se guardar e olhando para o dezenho, lembro-me perfeitamente dele, ainda úmido. Se tu eras, aquele momento, homem, bicho, planta, ideia, acontecimento ou dezenho mesmo, só o tempo poderá dizer. Mas fico aqui, refazendo pensamentos densos que esquecerei daqui a alguns instantes e rememorando você.

(...)

sábado, 25 de julho de 2015

Luana Afogada no Excesso de Objetivos Alheios

para Wanessa Cellys

Por Wanessa Cellys
  Houve Inquietude! Houve Tristeza! Houve Incerteza! Cheguei ao ponto de sentar-me à frente do computador pra decidir o que fazer. Tolice! Não poderia ser decidido ali. Uma vida toda não podia ser decidida num momento...! Poderia? Que tola, que tola, que tola sou eu.
  Parece tudo meio fora de órbita na minha vida. Tudo meio bagunçado, meio sem sentido. No computador, frazes e mais frazes de motivação, sobre sonhos e metas, Sobre otimismo e relacionamentos azuis, que fazem minha vida perder um bocado do sentido que a levava para frente. E essas pessoas sorridentes... Minha cabeça é um poço de ideias e buscas diárias. Inconstância, por mais que os dizeres dezenhados (por mim) no meu quarto exijam o contrário. Inconstante sou, e isso dói. 
  Desço um pouco mais o feed. Uma página inicial repleta de novidades: ele se formou! Ela começou a namorar! Ela fez um prato saboroso e quis colocar na rede! Ela tem um gato fofo! E conquistas, e frases de determinação. E conquistas e conquistas e conquistas... alheias. Quanta felicidade! Que agonia de mim mesma!
  Mas paro para refletir. Sorrio ao concluir que todas aquelas pessoas são como eu. Que essas frazes que as vejo compartilhar são como a minha "constância" dezenhada por mim no meu quarto: não o que realmente são, mas o que almejam ser.
  Guardo uma dúvida e uma relutância em fazer as coisas que não me era comum pouco tempo atrás. Sobre futuro. Sobre futuro. Sobre futuro. E os eus do passado, ali nas fotos, ali nas frases e nas ideias, não é muito diferente do eu de hoje. Não mudei, por mais que pareça ter mudado.
  O que viver pra chegar à meta? Qual é a minha meta? Não ter um sonho bem delineado faz de mim alguém sem sonhos ou alguém com sonhos infinitos? Se posso adequar-me às circunstâncias, isso não faz de mim alguém com mais possibilidades de ser feliz?
  Ah, como admiro aqueles que se dizem certos de seus objetivos. Eu mesma não consigo enxergá-lo muito bem. Mas vou galgando aos poucos pequenas descobertas, sentindo forte os caminhos. Refletindo frente às encruzilhadas. E decidindo aos poucos, Fazendo da beleza da viagem o caminho, não o final. Uma batalha interior diária, que se estende numa batalha interior da vida toda. Isso é minha defesa; diminui as possibilidades de decepção. Ou as aumenta?
  Houve Inquietude! Houve Tristeza! Houve Incerteza! Ouve: alguém que talvez concordou contigo está te dizendo algo e parece até que te admira por algo aí que você disse um tempo atrás, Luana...! Ouve!

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terça-feira, 30 de junho de 2015

Confissões à xícara espatifada


  Mas porque, diabos, o café esfria assim desse jeito? É essa xícara idiota. A gente põe o café fervendo e ela vai esfriando. O último gole vem gelado! Além dessa água que junta quando ponho algo frio. Nem eu, que sou gente, suo como essa estúpida. Xícara horrorosa, sem utilidade. Nem manter as coisas quentes consegue. Nem não suar consegue.
  Lanço-a longe. Ela se espatifa na parede, perto da janela. Podia ter atravessado a janela. E atingido alguma cabeça na rua. Uma cabeça de freira, que ia ficar com o véu todo molhado de café. Que graça!
  "E, desde quando eu comecei a me importar com isso?" penso, consternada. Que me valha Nossa Senhora, mas uma xícara de café frio nunca me irritou tanto como hoje. Perdão por ter pensado mal à freira...! Ela não tem culpa, vive só ali, como um passarinho, orando e orando e pedindo a Deus a salvação dos pecados de toda a humanidade.
  Ainda vem aquela megera da Vitória me dizer que estou meio gorda - mas meio gorda é ponto de vista, Vitória - não, não é, querida, existem estudos sobre isso. Índice de Massa Corporal, já ouviu falar? - não, nem quero, porque deveria? - só estou comentando - hum - na verdade, penso que uma dieta não faz mal a ninguém - Cale a boca, Vitória, estou bem com meu corpo - tudo bem, problema seu - meio gorda, meio magra, isso não me define - é, é, isso mesmo.
  As verdades não precisam ser jogadas na cara assim, Vitória, devem ser levemente depositadas num papel anônimo, sob a porta da gente. Daí a gente lê e não fica com raiva de ninguém, como estou de você agora.
  Sabe, acho mesmo é que estou frustrada. Por que não tenho a coordenação motora que me exigem pra tocar o saxofone? Já é a quinta vez que sou advertida. E não sei se é incompetência minha ou crueldade do professor.
  Foi o que escolhi pra vida. Tenho mesmo que continuar, me esforçar. Hoje já sou melhor que mês passado.
  Mas isso não diminui minha frustração. Por que haveria de? Odeio escutar "todos passam por dificuldades". Isso não diminui nem engrandece a minha. Me equipara aos outros, e, assim, somos todos mesmo um bando de condenados, que passamos pela vida vencendo uma dificuldade só pra ter outra. Odeio ouvir "quando acabar, será mais forte". Podia ter como apertar um botão pra voltar, só pra não ter que passar por elas.
  O café está escorrendo na parede branca. Se não limpar agora, vai ficar uma mancha horrível. Quem se importa? O apartamento é alugado mesmo.
  Pousa um pardal na janela. Odeio pardais. Tão comuns. Ele me olha com olhos sentimentais. Fome, há de ser. Pego as migalhas do meu prato e me aproximo da janela. O pardal voa, assustado. Mando-o se foder. Deixo as migalhas no parapeito e sento-me novamente.
  O café escorre. Se bem que... é onde vivo. Não quero uma mancha de café na parede da minha casa. E o pardal... era até bonitinho. Tinha um quê de unicidade. 
  Suspiro, me levanto e vou arrumar um jeito de limpar a bagunça.

(...)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Cena de Paz

  Ar. Puro. Vento fresco. Os únicos sons audíveis eram o crepitar do fogo e o rumorejar da água. E sons noturnos que silenciavam as palavras. A montanha fazendo uma exuberante margem no horizonte. Por cima de tudo a gloriosa lua.
  A postura dele não era de quem estava rancoroso, apesar da recente briga. Não era de êxtase, apesar da recente reconciliação. Como haveria de ser? Naquele lugar, não havia como sentir nada por muito tempo a não ser amor. Amor pelo mundo. Pelo céu. Pela lua. Pela terra, pelo mato. E um pelo outro também, claro. Contemplação. Ali, naquela lagoa, o ambiente era, pura e simplesmente, propício para amar. O amor plácido e calmo de quando tudo flui de verdade. E o contemplei. Parado, contemplando a imensidão à sua frente. O vento lambia-lhe suavemente os cabelos e a bermuda. Suas mãos paradas junto ao corpo não demonstravam a habitual ansiedade.
  Conexão, essa seria a palavra. Conexão com o mundo, com algo mais antigo e maior que nós, humanos. Conexão com tudo o que era óbvio e, ao mesmo tempo misterioso. Há quanto tempo não sentia isso? No trânsito caótico, na lida repetitiva, no cinza da minha cidade não havia a menor possibilidade de qualquer pausa. Era cama, despertador, escova de dentes, carro, rádio, semáforo, semáforo, semáforo, garagem, escrivaninha, papéis, papéis, papéis, carro, semáforo, chuveiro, cama  e tudo novamente. Aqui não. Tudo o que eu sentia era paz. E o convidei a sentir comigo.
  A cumplicidade que tínhamos não era apenas um com o outro. Era com tudo ao nosso redor. Lembrei-me da pedra, uma que havia achado há trinta metros do nosso acampamento. Ela se inclinava até a água e submergia levemente. Um lugar especialíssimo
  Então a maravilhosa ideia me ocorreu. Caminhei até ele e toquei em seu ombro fiz um gesto convidativo com a cabeça. Ele assentiu e sorriu. Naquele momento, não era preciso palavras para nos comunicar. Comecei a andar em direção à água e ele me seguiu. No caminho parei. Peguei uma grande folha redonda de um arbusto. Ele me olhou interrogativamente. Eu paguei sua mão e nos abaixei até o chão.
  -Olhe e veja alguma pedrinha, ou pequeno galho que goste. - disse eu.
  Para exemplificar, eu mesmo o fiz. Peguei uma pedrinha redonda. Ele sorriu e fez o mesmo. Um pedaço de galho.
  Chegando à tal pedra, eu dobrei a folha e coloquei sobre ela os objetos. Ele entendeu a ideia e me sorriu o mais belo sorriso do mundo. Juntos, nos abaixamos e pousamos delicadamente o barco improvisado na água.
  O vento encrespava a superfície da água e esta refletia euforicamente a luz do luar.
  E era aconchegante.
  A lua nos observava, ali abraçados, e senti que ela nos acolheu e nos convidou a fazer parte daquilo tudo. Nos convidou a sentir e ser com ela.
  E aceitamos.
(...)

sábado, 27 de dezembro de 2014

Vívido


Cara Tilde,
Francamente. O que aconteceu com esses azuis nesse Natal? Essas luzes tão fortes e tão azuis até me atrapalharam de sentir o clima natalino esse ano. Quem foi que disse que cor de Natal é azul? O Natal é vermelho! Aconchegante, quente. Ou dourado, glamoroso, rico, brilhante. Até pra gente que é pobre, faz a gente se sentir rico. Quem sabe a gente abra uma exceção pras luzes multicor, que são, a seu modo, charmosinhas.
Mas azul-boate? De forma alguma, nunca foi. E essa droga de cidade está toda decorada com essas luzes escrotas.
Essas ruas confusas... Muita idênticas! Muita casa igual! Será que se esqueceram de tentar personalizar as coisas? Acho que ninguém tem tempo pra isso nesses dias. Essas luzes desnecessárias. Esse verão quente... Essa obsolescência programada que mata qualquer coitado que queira se manter atualizado. A coitada da Cotinha, da loja, vive juntando dinheiro pra comprar esses celulares novos. Bobagem dela, tem mais coisa na vida. Crueldade usarem o nascimento de Jesus pra aumentarem as vendas. Se bem que tem o décimo terceiro, se não aumentassem as vendas, não iam conseguir pagar a gente. De onde vem todo esse dinheiro que esse povo arruma no fim do ano? Viagem, Natal, virada de ano, salário, imposto. Eu que não sei, não tenho isso. Devo o salário do mês que vem...! Olha, sinceramente, estou mesmo é cansada. Com tanta coisa pra fazer nem vi o fim de ano chegando, logo eu, que sempre fui inteiramente clima natalino, a vida toda. O que me pesa nem é isso, é a frustração, sabe.
Digo, o que fiz nesse ano? Passou e nem sequer percebi! Mudei quem sou? Não. Comecei alguma faculdade, como disse que começaria? Também não. Nem estudar pra concurso não estudei. Fiz o meu Ensino Médio muito bem, numa escola boa. Saí pra casar e quebrei a cara. O que me salva é a leitura. Estou é até hoje presa naquela porcaria de loja, empregada escrava de ricaços que nem sabem que eu existo. Eles sim! Eles que devem ter um Natal magnífico, com direito a perus assados e aquelas frutas charmosas do oriente... Macadâmias, uvas passas, sei-lá-zinhas. É isso mesmo, não é?
Ainda tive, nesse fim de ano, a tal Complicação. Os dias que passei internada foram desgastantes e horríveis...!
Você se lembra do Natal que a gente distribuiu sopa para os moradores de rua? Aposto que esses ricaços não sabem o que é isso. Foi bom. Parece que, quanto mais simples, mais verdadeiro.
O que aconteceu, hein? Bom, sei que, nesse momento, acabando de escrever esse email pra você, eu vou me arrumar e arrumar Toninho e sair pra passar Natal com Gustavo e seus parentes. Ao menos tem Gustavo na minha vida. É um bom companheiro. Faz tudo pra agradar a gente e eu também faço pra agradar ele. E é até bonito, acho que demais pra mim. Mas deu na telha dele noivar com uma mulher como eu, só resta aceitar. Só vou ficar esperta, pois não sofro mais como sofri com Wanderlei. Dona Vitória, mãe dele, se tornou também a minha mãe e é muito boa pra mim.
Bruna, da loja, diz que eu sou recatada demais, fria demais, que minha boceta deve ser congelada. Disse que eu me tratasse, cuidasse do cabelo, tirasse essas saias jeans horríveis, que nem sou religiosa e coisa e tal. Que eu devo até ficar bonita se me arrumar. Disse que eu devo ter feito macumba ou passado café na calcinha pra amarrar Gustavo. E que desse graças a Deus por ter segurado ele “até agora”. “Até agora”! que ordinária. Fica é com inveja. E não tiro a saia jeans, eu gosto!
Toninho se curou da caxumba. Está um menino forte e esperto. Fez sete anos. Graças a Deus, ele entende a dificuldade da mãe e não dá muito trabalho. Se dá super bem com Gustavo e é a única pessoa que ainda me faz sentir o clima natalino. Acho que ele vai amar o tratorzinho que comprei pra ele.
Sinto sua falta. Tenho certeza que por aí está tudo bem. Conforta-me saber que, assim que eu clicar Enviar, esse email vai chegar a sua caixa de entrada. Inquieta-me saber, que você nunca vai ler. Já se foram dois anos, querida Tilde, e eu ainda não me acostumei com a ideia de que você acabou debaixo de um ônibus... Nunca vou me acostumar. Não devia ter ido tão cedo...!
Mas a vida segue. Um dia melhora, se não piorar.


Atenciosamente, C. L.
(...)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O Assobiador


  Chamava-se João. João alguma-coisa, não lembro bem o que. Não importa também.
  Desde os 6 anos, que foi quando João aprendeu a assobiar, ele assobiava o tempo todo. Era a coisa que João mais gostava de fazer no mundo. Assobiava, quando criança, brincando com seus carrinhos e com seus inventos, sempre derivados do que seria descartado na cozinha. Até brincando de esconde-esconde ele assobiava e isso fazia sempre com que ele fosse encontrado. Ele não se importava, era algo que não podia
evitar. Era só ficar um tempinho parado em silêncio que vinha a vontade irresistível de fazer um som. Assobiava, na adolescência, no caminho de ida e volta da escola, no cinema, daquela primeira vez que beijou, na hora das provas, o que sempre causava qualquer problema.
   Depois de um tempo, ao perceber que em alguns momentos, assobiar lhe causava problemas, João foi inventando outros tipos de assobio. Havia o assobio grave, o assobio de chamar alguém, o assobio agudíssimo, o assobio despistado, que ele não precisava fazer o movimento de boca convencional, e até mesmo o assobio silencioso, no qual ele imaginava-se assobiando sem assobiar de fato, que era em momentos de prova, em que não poderia haver barulho. João inventou até um jeito de falar assobiando ao mesmo tempo, e fazia verdadeiros concertos pra si mesmo. Esses ele não tinha coragem de mostrar a ninguém.
   João assobiou tanto que, com o passar dos anos, o assobio foi ganhando um verdadeiro significado na sua vida. Era uma parte dele. Um pedaço que seria impossível retirar sem dor. Por isso os vários tipos de assobios, pra se adequar às várias situações. Havia também, por trás deles, toda uma filosofia. Era o que ele fazia para ajudar a melhorar o mundo. Se ele assobiava trazia música para as pessoas ao redor, tornava o dia das pessoas mais colorido e mais claro. Assobio lhe lembrava liberdade, alegria, leveza e graça. Era sua poesia sem palavras. Era o que lhe fazia feliz, mesmo quando a melodia era triste.
   Durante toda a sua vida, João assobiou por todo o lugar que passava. Se não se lembrava de alguma música, inventava. Assobiava músicas tristes e músicas felizes, dependia do seu humor. Era fato que nunca parava de assobiar.
   Um dia, estava João feliz voltando para casa, assobiando uma canção de violino que ouvira ontem. O dia estava claro! Cláudia, a vizinha, sorriu para ele: "Continue sempre a assobiar, canarinho." Seu Jove, da sanfona o convidou para um pequeno dueto sanfona-assobio. As pessoas pararam para ver. Casais se abraçavam, olhos de criança brilhavam. Quando acabou de assobia, João continuou o caminho. Dona Gantina, na praça com seus pombos, cumprimentou-o de longe, satisfeita por ouvir mais uma vez aquelas notas que saíam da "boca abençoada", como ela chamava.
   Mais à frente havia um inesperado objeto na calçada. Um boneco, o mesmo que ele tivera na infância, o que era a sua primeira lembrança. Ele se abaixou pra pegar e algo escuro o envolveu.
   A partir desse dia, João passou todos os outros numa grande e pouco confortável gaiola, assobiando cada dia menos melodias alegres, depois nem mesmo as tristes, até parar de vez de assobiar.

(...)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Na Feira

  Molar queria muito, muito, muito viajar nas costas de uma borboleta.
  As criaturas rondavam a campina. E a música animada produzida pelas Pedras se infiltrava em cada ser.
  Cada uma era mais bonita que a outra e cada uma era bonita à sua forma. Mesmo os cascudos sirilões ou os craquelados peixes-fora-d'água com seus aquários na cabeça eram bonitos. E rodavam ao redor deles borboletas de todas as cores e tamanhos que poderiam existir. Inclusive, a Borboleta Mãe, que sobrevoava tudo aquilo com sua envergadura de três metros e com as asas mais detalhadas que qualquer outro ser. Os seres humanos se dividiam entre adeptos da magia e leigos, que tinham ido até lá apenas pra checar os produtos que existiam. Pequenos preás com suas roupinhas de algodão verde e rosa, de modelo rebuscado, cheias de dobras e redobras corriam sob os pés de todos, apressados em resolver suas questões. De uma carruagem amarelo canário desceu a tão temida máfia dos pinguins, sérios, altivos e engravatados. Os simpáticos bus, cuja estrutura física não passava de bolas flutuantes de pelo multicor, esvoaçavam por todo o canto e um deles até entrou na garganta do mais idoso dos sacis, que engasgou e morreu, virando pó levíssimo e vermelho, que demorou dois dias pra se dispersar. E, no meio de tudo aquilo, a pequena Molar, segurando na mão sua boneca de trapo com os olhos de botões desiguais. 
  Ela subiu numa árvore e começou a observar as atividades. A Dama de Sete Metros se agachava nesse exato momento. Pegou uma grande rede de caçar borboletas e começou a rir e correr, querendo pegar na rede a Borboleta Mãe, fazendo o chão tremer e a barraca de uma tamanduá cair. Cinquenta crianças de todos os tipos se encontravam sentadas, escutando as histórias contadas pelo Professor Tatu, o ser mais falante da feira.
  Molar sorriu e teve certeza que ali era seu lugar. Desde que seguira o bu aparecera para ela, brilhando e dançando no seu quarto abafado do orfanato, pela abissal floresta de grama, ela descobrira o mundo e escalara até a cabeça de um gigante. E A Dama estava quase pegando a gigante borboleta.
  Estava feliz. E nada ia tirar isso dela. 
  A Dama de Sete Metros finalmente consegui pegar a Borboleta Mãe, que se transformou em mil borboletas coloridas que vieram levantar Molar da árvore levá-la para mais um passeio maravilhoso, nas costas de mil borboletas, ao invés de uma só.

(...)

domingo, 12 de outubro de 2014

Negações


  Grude. Um grude denso. Puxento, melado, esquálido, nojento, enfim. Era tudo o que eu via à minha frente. E ao redor de mim. E dentro de mim. De repente eu me tornei aquilo. Nojo de mim.
  E agora não havia um movimento que eu fizesse que não deixasse gotículas por toda a área, sujando ainda mais aquele ambiente hostil. Depois de um tempo, percebi que estava respirando a mim mesmo. Não aconselho ninguém a respirar a si mesmo. No mínimo, dói.
  Fui andando. Deixei pegadas meladas por todo o lugar, que ia só diminuindo. Num acesso de plena frustração e falta de orgulho, chorei. Chorei grude. E tive nojo do meu choro. E o mundo também. E as pessoas me olharam admiradas com a capacidade que tive de me deturpar.
  Segui. Mas segui mal, meu olho embaçado. E chorava grude a todo momento.

(...)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Querida


  Sabe, amor, aquela nossa almofada? A que o cachorro rasgou. Ela está no lixo. Mas aquele momento nosso, aquela luz que pareceu aparecer enquanto nos beijávamos, logo depois que compramos a almofada, com todas aquelas pessoas ao nosso redor... Ainda está tudo guardado em mim. Sinceramente, estou cada vez mais retraído, mais triste. É difícil. É inconsciente. É culpa da gente.
  Uma vez disse que o fim não importava, que a melhor parte era o meio, o caminho. Retiro o que disse. O fim importa. O fim é um limite chato. Se for fim de fato, vai querer dizer certeza. O ponto final torna-se algoz cruel. Adaptar-se será possível, mas difícil. Tropeço, arrasto... E assim a gente tenta seguir.
  Ao sair do cinema, naquela noite, eu só queria te abraçar. Agora prefiro falar coisas sem sentido... Pra mim fazem sentido. Guardei em mim o seu sorriso, e ele ilumina-me às vezes. Espero que o fato de eu ter colocado o seu nome no hamster que comprei não tenha te ofendido.
  É que a fenda no meu coração é grande. Até a poesia cai ali... 
 E nem todas as palavras que você gostava podem fazer uma ponte agora. É preciso ser essa coisa dramática? Pensar que era ontem que sonhávamos um filho. Brincávamos. Agora a gente cresceu e as obrigações do dia-a-dia diminuem cada vez mais a chance da gente se encontrar. O acaso não é mais nosso deus. Hoje, usamos óculos absurdos e suamos para ir ao banheiro. É, sempre tive medo que a rotina nos acabasse.
  Fui feliz com você. Juro que sim. Acho que a felicidade se foi junto com você. Ademais, duvido que haja algo que não seja finito.
  Olhe para mim, querida. Não deixe-me sofrer assim. Que essa água que sai do meu olho agora não seja em vão. E pensar que todas aquelas vezes antes eu fingi sentir dor. 
  Estávamos interrompendo a luz do outro tanto assim? Vou me rasgar. Se rasgue comigo. Alimentemo-nos com muita cautela. Dizem que o corpo é importante.
  Não pouse em vão nunca, amor, não brinque com o previsto.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Desabar

  Era tão bom que tivéssemos aquele lugar só pra gente. Ele sempre chegava próximo a uma janela qualquer pra acender um cigarro e ficar encostado nos cotovelos, com uma perna cruzada sobre a outra, como só ele sabia fazer. Fiquei deitada observando a silhueta do corpo masculino belo e nu dele. O céu era de um nostálgico cinza lá fora.
  Chamávamos ali de Buraco. Era um dos muitos apartamentos mal cuidados do prédio. A pintura estava descascando, via-se inúmeras rachaduras, o azulejo da cozinha tinha mais peças quebradas espalhadas pelo piso do que pregadas na parede. Boa parte do forro de gesso, antigamente tão belo, estava no chão e a poeira já fazia camadas. Trepadeiras, cujas sementes foram trazidas por pássaros, cresciam ao redor da pia da cozinha e numa das paredes da sala. De mobília, tínhamos apenas a velha e boa cama de molas que já abrigara nossos corpos nus tantas vezes, assim mesmo sem lençol ou travesseiros, uma geladeira quebrada que estava sempre vazia, um fogareiro a gás e uma cadeira antiga de balanço que ele herdara da sua avó.
  Não nos incomodávamos. Era bom estar num lugar que trazia à tona os seus problemas, as suas dificuldades e confusões. O Buraco estava em um dos muitos prédios abandonados naquela área. Era um dos menos pichados, inclusive. ninguém mais se importava com aquele conjunto de prédios, exceto a gente e alguns usuários de crack ocasionais. Mas o vazamento ocorrera há 80 anos e a radiação já não era mais perigosa. Muita coisa ruim aconteceu ali e alguns fantasmas ainda não tinham se desprendido. Sempre pensei que era hora de botar vida ali novamente...
  Mas, como uma maldição, todas as pessoas se esqueceram do lugar, escolheram esquecer. Tinham levado às pressas suas roupas e vidas dali. Seguiram as vidas longe. Exceto eu e ele. Duas crianças que correram e certo dia acharam um lugar. Construíram um castelo de vivências e recordações, um mundo deles. Meio macabro, pitoresco, medonho, mas, no fim das contas, deles. Quando veio a adolescência, nos tocamos e descobrimos, curiosos a anatomia um do outro. Foi bom. Tanto que decidimos carregar aquela cama velha pra lá. O colchão era empoeirado e carcomido, mas nada importava quando estávamos juntos.
  Ele, sempre muito calculista, decidiu certo dia que não queria mais ficar ali comigo apenas. Eu, moça caseira e de desejos simples, nunca entendi o porquê. Mas eu não podia segurá-lo. Tinha que "ganhar o mundo" e ninguém "entraria no meu caminho". Essa era a última vez. O cigarro acabou. O toco foi amassado. Ele pegou o meu vestido, com aquele jeito desinteressado, e jogou-o pra mim. Entendi que era o fim. Nos vestimos, ambos conscientes e saímos do quarto, andando de mãos dadas como tantas outras vezes. Mas essa era diferente. Era o adeus.

sábado, 14 de junho de 2014

Patchouli

  Da janela da sua quitinete, com o copo de suco pra curar ressaca na mão, observando os barcos indo e vindo na Veneza que ele tanto amava, e acompanhando um belo por do sol rosado, Gular entendeu o verdadeiro sentido do tal jargão "Só se dá valor depois que se perde". O álcool tinha saído do corpo durante o sono e deixara sua cabeça explodindo de uma pulsante dor. Os fragmentos de memória não se encaixavam de forma alguma. Não achava que bebera tanto, mas as loucuras de ontem arrombaram sua porta e se sentaram no sofá inconvenientemente, como um vizinho que acha que é seu amigo e ficaram encarando ele com olhos julgadores.
  Gular acredita na capacidade que as coisas têm de desandar. Acredita em energias, boas e ruins, que podem influenciar as pessoas. Acredita que a merda que as pessoas influenciadas por energias negativas e por álcool têm de fazer não tem limites.
  Tirou os olhos dos barcos e do céu e se voltou pra escrivaninha, onde os lápis e cadernos estavam jogados junto com bitucas de cigarro e o incensário. Decidiu escrever um pouco, apesar de que o último texto que produzira fora a história de Pepe, o caracol. Achou um incenso jogado no chão, colocou-o no incensário e o acendeu, deixando o aroma agradável do Patchouli se espalhar aos poucos no ar. Ao escrever duas palavras, tudo o que vivera até ali naquele capítulo de sua vida voltou à tona com uma rapidez brutal e foi tudo pro papel.
  Percebeu naquele momento que a Torre de Pisa poderia ter caído, a Europa dizimada por uma bomba nuclear, a Lua nunca mais aparecer e isso não teria muito significado nada pra ele.
  Há algumas semanas, conhecera um moço. De tudo que era desproposital, nasceu algo. Gostou muito dele. E foi recíproco. Isso significou algo pra ele: significou a fraqueza óbvia de Gular em tentar controlar os seus sentimentos. Foi o fato de que Gular estava novamente caindo em amor, coisa que ele prometera não fazer tão fácil. Mas o jeito, o cheiro, o gosto, o sorriso, a estranheza e o mistério que emanavam do moço eram tão únicos e belos que foi meio involuntário criar alguma expectativa.
  Viu defeitos. Mas viu qualidades que superaram os defeitos.
  O álcool se misturou com açúcar e com a tal da energia negativa que estava rodando no ar e o drink foi amargo. Por motivos poucos e imaginados, Gular levantara o punho contra o moço e as ondulações repercutiram em todos os outros âmbitos de sua vida.
  Olhou pra cima. A fumaça de patchouli continuava a subir e as lágrimas rolaram descarrilhadas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Alma Velha

  As juntas já doíam. As físicas e as psicológicas. Era tempo demais sentada pra ela não enlouquecer. O problema nem era estar sentada, era o que ela fazia sentada. Desenhar sempre fora para ela um hobbie para se fazer no meio de gente, com conversa, barulho. Do contrário, ela começava a pensar. E ela não conseguia encarar seus pensamentos. No dia inteiro ela tinha feito cinco desenhos bastante trabalhosos, mas não conseguia deixar pensar que estava ociosa, que não estava fazendo nada pra melhorar a vida.
  Era um relacionamento que não tinha muita coisa a ver com ela, aquele que ela tinha. Coisa bígama, polígama, quem sabe, e nem podia fazer nada pra que mudasse; ela amava tanto que preferia passar por cima do orgulho e da forma de pensar. Ela pensava não ser desse século. Era moça jovem com alma de gente que já se encarnara há muito tempo, ou muitas vezes. Anos 20! Século XVIII! Porque não nascera naquela época? Se bem que não, naquela época seria obrigada a usar aquelas roupas quentes. E a curvar-se ante aos homens. Ah, não. Nascera na época certa, sim. Decidiu se levantar um pouco do desenho pra olhar em volta, respirar. Talvez ir num lugar cheio de gente e continuar desenhando.
  Determinada, juntou seus lápis e papéis, indo direto à praça mais próxima. Gostava bastante daquele lugar.
  Era moça tão imaginativa, que amava sair do seu corpo em imaginação e ver as maiores maravilhas mundo afora. Odiava a situação, mas fora presa na terra por um amor mal resolvido, ou bem resolvido, que para ela era mal resolvido. Era tão jovem! Tinha tanto ainda a ver, a ouvir! Mas já vivera tanto... Viajara, fugira, sonhara, tivera o coração despedaçado. O mal dela era recusar-se a aceitar sua juventude.
  Ao sentar-se num dos bancos da praça, com seus óculos, anéis e botas de todo-dia, percebeu uma pequena foto antiga no chão à sua frente. Em sépia, retratava uma menina sorridente, em frente a um matagal, de uniforme escolar à moda antiga. Curiosa, pegou a foto.
  Ao virar atrás, nada viu. Nenhuma, data, nada escrito. Era um pedacinho de alguém que fora perdido. Simplesmente uma lembrança que caíra da bolsa de algum dos apressados transeuntes e agora, por acaso, viera parar com ela. Sentiu-se feliz. Sentiu saudade da infância daquela menina, mesmo que ela nem soubesse quem a menina era. Sentiu falta de algo que nunca tivera, e não soube explicar o porquê. Pensou que talvez fosse sua alma de velha que se conectou com a foto.
  Instigda, começou a divagar sobre quem seria a menina. Quem teria perdido a foto? Um primo dela? O seu filho? Ela própria? Será que essa pessoa sentia falta da foto? Aquela roupinha, aquele sorriso. O que essa foto registrava? Um primeiro dia de aula, um uniforme novo, um penteado diferente, talvez? E aquele lugar? Sua casa, sua escola, um calçamento qualquer?
  A desenhista, imediatamente esboçou no papel a foto, em tamanho bastante ampliado e pôs-se logo a trabalhar nos detalhamentos. Não conseguia deixar de pensar na menininha da foto. Estaria ela ainda viva? Será que ela sofrera de amor também, como sofria a moça?
  Um dedo cutucou timidamente a desenhista. Era um jovem barbudo, meio misterioso, de óculos quadrados.
  -O que desenha?
  -Essa foto.
  -Posso me sentar?
  -Claro.
  Sentado ao lado dela, o jovem passou a mão pelos cabelos e perguntou se a foto, por acaso estava no chão.
  -Sim. Bem ali. - e ela apontou - Oh! Era sua? - logo ela se arrependeu de usar o verbo no passado, mas era como se a foto já fosse parte da história dela!
  -Sim. É minha mãe. O primeiro dia de aula dela na escolinha, está usando o uniforme pela primeira vez. É minha única recordação dela. Ela mora do outro lado do mundo e eu gosto muito de olhar pra essa foto quando me bate a saudade. O amor dela sempre me recarrega as forças.
  -Oh, me perdoe! Tome-a de volta! - e estendeu a foto, sinceramente torcendo para que o menino soltasse um heroico não-o-que-é-isso-pode-ficar-com-ela. Mas ele apanhou a foto, abriu a mochila, agradeceu, elogiou o desenho, disse que se ela quisesse, podia terminar e saiu.
  O desenho da foto nunca foi concluído, mas posteriormente, o rascunho foi emoldurado e posto sobre a cama dela. E ela sorriu ao perceber que o amor, mesmo que torto, não a prendia na terra, mas proporcionava uma liberdade imensa pra que ela pudesse voar. A menininha da foto crescera e tivera um filho, que a amava e morava do outro lado do mundo. Ainda alguma esperança havia para ela.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Pipoqueiro

  Um dia, Chico relaxava ao lado do painel que era seu ganha-pão, cheio de brincos, colares, pulseiras e anéis. Era uma tarde ensolarada de uma praça qualquer. Ele observava os transeuntes apressados e agradecia por não fazer mais parte daquilo. Foi quando o diálogo de um grupo de adolescentes no banco ao lado lhe chamou atenção:
  -Me pergunto - dizia um dos adolescentes - se os vendedores das lojas de móveis lembram-se de muitos fregueses. - os outros riram, não entendendo a profundidade da indagação do primeiro. Ele continuou - É sério! Imaginem um casal jovem comprando a mobília de sua casa, até então vazia. É a realização de um sonho! O que estes móveis representarão para eles! Neles, eles construirão um lar, edificarão uma família! Quantas e quantas vezes vão se sentar àquela mesa que estão comprando agora, quantas vezes se jogarão naquele sofá, cansados, e tirarão os sapatos? Quantas vezes vão arrumar as roupas dentro daquele guarda-roupas?
  -Quantas vezes transarão naquela cama?
  -Ah, cale a boca.
  -Isso também! Mas entenderam o meu ponto de vista? Será que o vendedor tem noção de que o  que ele vende ali é o lar que vai acompanhar o cotidiano daquele casal por anos? Será que esse vendedor se lembra dos olhares e dos sorrisos dos seus clientes?
  Um senhor idoso ia passando por ali e ouviu estas últimas palavras. Voltou à turma e pediu licença para sentar-se com eles por alguns instantes:
  -Perdoem minha intromissão, meus jovens, e não me julguem sem lucidez. Sou velho e sem muito horizonte na minha frente, ao contrário de vocês. Não pude deixar de ouvir o comentário desse curioso e perspicaz amigo de vocês. Estava falando sobre qual vendedor, meu rapaz?
  -Sobre o de móveis.
  -Do de móveis não sei lhe falar. Só digo-lhes que o único vendedor que se lembra dos seus clientes é o que faz o que faz por amor. Fui vendedor de balas, pipocas e algodões-doces. Pode parecer exagero, mas lembro-me do sorriso de cada criança e do abraço de cada casal que comprou algo na minha mão. Não posso dizer que lembro-me com detalhes de todos, pois foram 20 anos, mas guardo-os todos aqui no meu coração. Talvez pela sincera felicidade e satisfação no rosto de cada um. Vi meninos e meninas crescerem e voltarem a mim com as pessoas que amaram. O vendedor de móveis que ama vender móveis talvez se lembre do sorriso de alguns clientes e os guarde no coração. Quando atingimos uma meta, seja comprar uma bala, seja comprar a mobília, nosso sorriso é tão sincero e inocente quanto o de uma criança. É a beleza de ser humano.Quando se vive por coisas pequenas, quando se sobe um pequeno degrau de cada vez. Agora, tenho que ir que Glória me espera. Até mais!
  O velho se levantou e deixou os adolescentes e Chico silenciosos a refletir. Levantou-se da vida deles para nunca mais aparecer, e aí ficou a beleza e o mistério. Quem era esse velho? O que vivera? Quantas pessoas ajudara, com quantas brigara? A vida de Chico estava cheia de encontros assim. Como duas formigas que andam, se cumprimentam e seguem seu caminho, apesar de pertencerem ao mesmo formigueiro, que é ser humano, com todas as suas semelhanças e unicidades.
  Como que para lembrar Chico Samba que ele tinha um certo compromisso com a vida que escolhera, uma moça de saia estava parada defronte o painel e perguntou:
  -Quanto é este colar?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tricotando

  -Já foi a Pasárgada, mulher?
  -Jamais, nem quero ir. Não acredito em poesia, não acredito em nada. Só acredito que são todos sonhadores. Quando se trata de futuro, ninguém sabe esperar muita coisa e, quando um sabe esperar, espera a coisa errada e quebra a cara, é terrível. Foi nesse mundo corrupto e inconveniente mesmo que minha filha nasceu e eu não consigo acreditar que isso seja bom. Não foi em Pasárgada, não foi em qualquer outra Terra. Já estava a mercê das bombas assim que respirou pela primeira vez. Não acredito que haja vida em outro planeta e isso é triste, pois a gente está destruindo o único que há. 
  -Eu já acredito que haja.
  -E isso cancela o nosso erro?
  -Talvez acabemos conosco. Isso é um presente pro resto do universo.
  -Ontem foi Marta, hoje é Camila, amanhã talvez seja Otávia. Não tem vergonha, mulher? De mudar de nome e de personalidade assim? Eu mesma não mudo, não; sou simplesmente eu. 
  -Seu discurso parece profundo, sabia? pra quem não te conhece bem. Parece um discurso profundo e crítico, talvez mesmo inteligente. Não entendeu até hoje que mudar de nome, pra mim, é vida? É necessário não ser conhecida. É necessário conhecer muitas facetas de mim mesma. Fico feliz em ser assim. Chama-me de Mulher, estarei satisfeita.
  -Eu, prefiro ser eu.
  -E tem muita dúvida de quem é, ainda assim.
  -Mas me conheço melhor que você, que muda de nome. Eu convivo comigo mesma há muito mais tempo do que você já conviveu com qualquer uma de suas facetas. É terrível a humanidade porque tem muitas perguntas. Tendo muitas perguntas, busca sempre por respostas e não se aquieta jamais. Nós, velhas, já nos cansamos de perguntar e agora respondemos a várias perguntas dos outros jovens.
  -É que perto da morte a gente fica mais sábia.
  -É metafísica a morte.
  -É.

domingo, 23 de março de 2014

Tegredol

Monumento ao Trabalhador - Tomie Othake
  Do banco da imensa praça, Dona Gantina observava as pessoas. Não entendia direito aquela coisa de cada um andar sozinho, muitas vezes cabisbaixo, falando com um fio descendo do ouvido. 
  Dona Gantina não sabia nada sobre política além do que era comentado pelas amigas do tricô. Não sabia nada sobre tecnologia, além de que o botão verde do celular servia pra atender e o vermelho pra desligar.Nada sobre medicina além do que aprendera durante a vida com os costumes populares e com a propaganda de rádio, vinte anos atrás, que repetia que Tegredol era remédio pra doido. Mas ela não sentia falta de nada disso não.
  Ela tinha a vida que queria. Batalhara a vida toda, desde muito antes de ser chamada de "Dona". Quituteira a vida toda, tinha a pele queimada de forno e as mãos calejadas. Atualmente, ela fazia alguns doces ainda, mas só quando dava na telha. Morava com uma sua amiga, Dona Cândida, companhia desde a mocidade. Quando ela parava pra pensar, vira que sua vida não mudara tanto. O que mudou muito foi a cidade. Cresceu demais. A casa continuava a estar onde sempre esteve, frente à praça. Mas a praça não era a mesma, com aquela coisa que colocaram lá.
  Diziam uns ser arte moderna. Outros diziam ser uma linda expressão do intelecto humano. Alguns ainda falavam que era algo que cada pessoa podia enxergar o que quisesse, pois a "obra" representava a vida de cada pessoa de uma forma diferente.
  Não era. Dona Gantina olhava pra coisa nesse momento e decidiu que não era nada disso. Era só um bocado de ferro curvado. As curvas eram até bonitas, mas ela não via nada além disso.
  Alguém dirá que Dona Gantina é burra, mal instruída, ou nem um pouco imaginativa só por não ver algo na coisa? Ela não se importava. Já vivera muito pra isso. Jogou milho pros pombos, riu daquelas pessoas cabisbaixas, com suas tabas tecnológicas, acabou a colcha de tricô, se levantou e foi rebolando feliz da vida pra casa, fazer doce de anelzinho de mamão.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Monólogo de um Velho Cansado ou O Sentido

   
   
Sete dias, é o tempo que a senhora vai ficar? Ah, desculpe lhe chamar de senhora, sou mais velho, nem faz sentido mais. Sete dias é bom; em sete dias o mundo foi criado e no sétimo dia Deus descansou. Vai descansar no sétimo dia também? Eu nem sei mais nada... Tanto livro nesse lugar e nem sei. É que, pra ser sincero, não sei ler. Tenho a audácia de dizer isso apesar de ter lido cada um dos livros dessa biblioteca desse asilo, sem contar os que li em toda a vida.
   É que meu analfabetismo não é de palavras escritas. É de algo a mais, algo que nem com palavras pode ser dito. Sou um analfabeto das emoções. Não sabes o quanto eu peno pra compreender algumas coisas.
   Desculpe a bipolaridade; sou assim mesmo. Nestes 89 anos fui assim, não é possível que eu mude daqui pra frente, não é? É que tenho uma alma bagunçada, minha jovem. E sabe o que é pior? Sei que talvez eu já esteja próximo da morte - ela parece mais próxima aqui dessa cadeira de rodas - e ainda não entendi a minha missão nessa vida aqui. Desculpe se você não acredita nisso, mas eu creio que viemos nesse mundo para cumprir alguma missão. 
   Isso me lembrou um dia quente há muito tempo atrás, talvez mais do que eu queria. Foi um dia estranho, minha cara. Eu acordei com um desânimo, com uma nuvem pesando pesada sobre meus ombros. Não sei dizer o que era. Acho que algo espiritual mesmo. Ah, minha filha. Você não acredita nisso também? Tudo bem, não vou discutir. O fato é que o dia correu vagarosamente, eu pensando em morte, eu pensando em como seria mais fácil morrer. Era uma inquietação imprópria, bárbara e muito densa; um rapaz de 19 anos pensando em testamento e em morte. Nesse dia, não lembro qual nem por que, mas uma porta tinha sido fechada na minha vida. Talvez uma das primeiras portas que se fecharam numa longuíssima jornada. A sofreguidão da idade me fez ver aquela porta fechada como todas as portas fechadas e a vontade de correr mundo teve de ser adiada. Hoje digo a você: seria sim muito mais fácil morrer ali. E morrer jovem, para que ninguém se lembrasse de mim como um velho decrépito, como você há de se lembrar. Mas eu não teria vivido os outros 70 anos da minha vida e não teria visto o quanto vi. E seria um desperdício, sabe? Vi coisas horrendas, mas vi coisas magníficas, de amor, de carinho de incondicionalismos.
   E não me arrependo de não ter morrido aquele dia. Mais tarde, no mesmo dia, eu me encontrei com pessoas que me fizeram sentir amado. E tudo passou, todos os desejos perderam o sentido.
   Mas ainda não sei o sentido da minha vinda, da minha vida. Eu te contei muita coisa agora, menina. Não que tenha contado os detalhes, mas contei como foi durante minha estadia aqui. E agora, engraçado, estou me sentindo em paz...
   Creio que está na minha hora. Talvez o sentido da minha vida tenha sido chegar até esse momento e te contar isso. Não sei ao certo o que você está passando, minha linda, mas eu sei que minha história deve ter te ajudado de alguma forma. Agora saia. Me deixe aqui nessa cadeira de rodas com os livros que me fizeram companhia por toda a vida. Não adianta protestar! Não fique, por favor! É o último pedido de um velho no fim da vida. À tarde venha buscar minha casca, creio que não precisarei dela.
  Por que me olha com esses olhos lacrimosos? Todos os que eu amava já se foram. Ficar aqui adiantará no quê? Ah, quer ficar mesmo assim. Tudo bem, incline um pouco mais minha cadeira, por favor. Obrigado. Segure minha mão então e me deixe ir. Não soluce, querida, chore silenciosamente. Estou feliz. 

(...)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma Menina

  Molar brincava com a boneca pela nona vez naquela mesma noite. Era curioso ver uma garota daquela idade ter tanta destreza com trabalhos manuais. Trocava as roupas da boneca com incrível e num tempo recorde, tudo à luz da pequena lanterna sob o lençol. Brincava com a boneca como se o pano grosso e espesso que era sua pele fosse o plástico rosa e delicado daquela Barbie que vira na loja de brinquedos, brincava como se seus olhos de botão e sua boca bordada fossem parte do rosto da mais bela mulher que conhecia.
  Era curioso ver aquela cena e, no entanto, ninguém via. Era sozinha no mundo e isso a amedrontava muito, talvez por ser tão óbvio.
  Por esse motivo, Molar gostava também de espetar agulhas na sua boneca.
  Não que tivesse alguém específico em mente... faz parte de estar sozinha no mundo. Mas ela gostava de imaginar que estava se vingando de seus coleguinhas que a desprezavam, de seus professores que a subestimavam, dos inspetores que a prendiam, dos pais que a abandonaram, do mundo que a recusava, enfim. Espetava agulhas pois não tinha algo mais violento em mente. Não havia nenhuma vingança propriamente dita ao seu alcance, então enfiava agulhas na boneca.
  A boneca era muito peculiar. Era uma tentativa de fazer uma boneca fina e delicada a partir de um saco de estopa. Uma tentativa que deu errado, obviamente, e a delicadeza ficou muito macabra. Os olhos eram botões, cada um de um tamanho e um tom diferente, o maior brilhante e o menor fosco.
  O nariz era o encontro das duas metades de tecido, dividindo o rosto da boneca ao meio. A boca não passava de um coraçãozinho vermelho mal bordado.
  De braços e pernas disformes e um cablo de barbante laranja curto e puído, a boneca assustava a todas as crianças. Exceto a Molar. A garotinha de 5 anos via naquela boneca a família que nunca tivera. Adorava imaginar a procedência dela:
  -Foi da minha avó. - dissera uma vez a uma moça loira - A mãe dela que fez. Aí ela deu pra minha vó que deu pra minha mãe que me deu.
  Mesmo assim gostava de espetar agulhas nela. Ela tinha a grande vantagem de não questionar o motivo das coisas. 
  "Quem conta um conto aumenta um ponto." Encabulada com essa expressão, Molar aprendeu a sempre aumentar uma pessoa na família ao contar a história. Assim, a mesma loira escutou o mesmo caso, um mês depois, como a boneca estando na família da menina há 9 gerações. Nos apoiamos em ficções quando nossa realidade não vai tão bem.
  E Molar não entendia sua história. Segundo Dona Clávis, que sempre vinha uma vez por semana com seu coque impecável e seu batom laranja da cor do cabelo da boneca quando limpo, a menina fora encontrada numa manta com a boneca, na porta do Instituto. 
  Mas ela preferia não questionar as coisas. 
  Ao invés de se estender nesses assuntos, Molar pegou a boneca, foi ao pátio do Instituto e pôs-se a brincar feliz da vida.

sábado, 16 de novembro de 2013

Manhã Dela


  "É a minha manhã" pensou ela. Tirara essa manhã fresca e raríssima para dedicar-se aos pequenos prazeres que tinha na vida. Nem levantou-se da cama, dali mesmo abriu as cortinas. Pegou o livro  de cabeceira, que mudava assim que era terminado, e leu mais três capítulos. Era bom. O momento era bom.
  Seu cobertor xadrez, como a maior parte de suas roupas - adorava quando uma cor sobrepunha-se a outra naquela trama quadriculada, extremamente variável - lhe dava uma sensação de segurança e conforto. indescritíveis. Morava sozinha, então forçou-se a levantar da cama e esquentar um pouco de leite na chama do fogão. Preferia o risco de, se se distraísse, ver todo o leite se derramando, pulando da leiterinha herdada de sua avó a esquentar o líquido no seu microondas e não sentir o cheirinho que ele soltava. Para ela tudo no microondas tinha um ar artificial.
  Com o leite quente, o cobertor xadrez e o delicioso clima, supreendeu-se ao ver que o livro simplesmente acabara. Pegou o próximo da fila, uma pilha de livros organizados de acordo o seu interesse e leu mais dois capítulos.
  Fechou-o com dedos delicados e olhou em volta no quarto.  A radiola ainda estava lá. Será que ainda funcionava?
  Cuiosa, ela saiu da cama e ligou o aparelho, tentando sintonizar qualquer rádio que fosse. Chiava, mas "Disprada" era uma música que a lembrava sua infância no interior, a casa na roça com sua avó a cortar verduras, a panela de pressão a apitar. Agora sua vida havia mudado radicalmente nessa cidade grande. Mesmo com a janela aberta, se recusava a ouvir o barulho dos carros, das buzinas, dos pneus lá fora. O único som que se permitia ouvir era a música chiada proveniente da radiola. Sorrindo, tirou um cochilo, desenhou uns rabiscos quaisquer no caderno, espreguiçou-se.
  E em nenhum momento daquela manhã passou pela sua cabeça que o mesmo clima frio que considerava bom poderia ser congelante e desagradável para outras pessoas. É difícil enxergar o sofrimento alheio quando se está feliz. 
  Mas ela não se culpava. Aquela manhã era dela. Depois de um ano tão cansativo, um mês tão dentro da rotina, uma semana tão sem perspectivas, aquela manhã era dela.