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sábado, 3 de dezembro de 2016

Redemoinho


Me esforço em tirar a última peça dessa roupa que me prende.
A gente seguindo deve ser algo quase cômico
Tanto tropeço!
Um mais denso que o outro.
Até a mais completa e nua
queda.

O arrependimento rasgou a última peça.
Mas mãos se estendem pra te mostrar que não está só.
Um dos grandes benefícios de cair
é que a vista do chão é uma vista
completamente
nua.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Amores de Praça II

A despeito de toda rotina, que esmaga em conveniências; além de todos os carros que correm desembestados e dos pobres cães de rua, assustadiços e desavisados, está ela. Seguindo uma rua desconhecida.
A magia daquela rua não é apenas o fato de ser desconhecida. A magia daquele momento está em ser momento. As pessoas já correm e trasladam dum ponto a outro na cidade. Contudo a manhã nasce, lenta e sem pressa. Um raio transversal de luz atravessa a fria rua; encontrou alguma brecha entre os tijolos e o concreto. A luz atravessa a moça.
Estalar de dedos. Latido de cão. Esfregar de olhos. Bocejo.
Ela anda em paz. Está satisfeita, está plena. E olha para os lados sem compreender muito bem a ansiedade e insatisfação geral.
No fim – não veem? – desta rua há uma praça. Há de ser. Uma praça. Nova ou conhecida, há de ser. Esta rua tem jeito de rua que leva a praças, tortuosa como é. Incomoda-a ruas retas! Dão possibilidade de caminhar rápido de mais e os detalhes se passavam sem que visse direito. Essa rua, com sua leve curva, com certeza esconde, no seu fim uma praça bem aconchegante. Na praça há de ter um banco e gente, fazendo algo qualquer. E a magia está naquele raio de luz.
Se a rua não tiver fim, não haverá frustração; a simples perspectiva de uma praça a satisfaz. Na verdade, o som dos seus passos basta. Algum passarinho há de ter.
As pessoas estalam os dedos latem esfregam os olhos bocejam. E correm e correm, perseguindo sonhos que não lhes caía muito bem no ombro.
Não é que ela não tinha sonhos. É que os sonhos dela eram um bocado mais simples. A perspectiva fresca e doce de uma praça era suficiente para que pousasse um pé na frente do outro e seguisse seu caminho.

(...)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um carro e um avião

Fotografia: Zek Andrade
  O que mais marcou foi um instante. Ele estava parado, olhando um avião que vinha passando baixo. E um carro, que passou em sua frente. E o instante em que o avião e o carro ficaram um sobre o outro, simetricamente encaixados.
  Que beleza! O carro, ser terrestre, o avião, ser aéreo. Distintos, mas ali conectados. Meios de transporte, cada um com sua capacidade, ambos seguindo, a velocidades diferentes. Mas ali...
  Um carro que continuaria seu caminho por terra, um avião que continuaria pelo ar. Pra onde iriam? Que diferença isso fazia? Se estivessem indo pro mesmo lugar, chegariam lá. Se não, estavam ali, conectados agora. Ali, tudo pareceu ter sentido. Toda a raiva e frustração do dia, da semana, do mês deixaram de existir. Por menos orgânicos que fossem, o carro e o avião se completavam ali, naquele instante. E se lembrou tanto da essência das coisas. De pássaros e flores, de ser o que se é. Um instante tão prosaico, mas tão poético.
  O carro uma flor, o avião um beija-flor. E tão poético como é um desses beijos foi aquele instante. O beija-flor tem tanta magia, tanta beleza própria! E isso não tira de forma alguma a beleza da flor, exuberante. É um instante de troca, onde o beija-flor propõe espalhar o pólen a troco de um pouco de substância. O beija-flor se satisfaz, a flor se multiplica.
  Ele não sabia o que sentir, o que comentar. não havia nada para ser comentado. Um instante tão épico como aquele não era pra ser visto por todos. Ninguém que o compreenderia. Louco... o chamariam. Que o chamassem!
  Supitou no seu coração um fogo que não era usual. As decisões que há tanto tempo o incomodavam, percebeu que já as tinha tomado há muito, que o que o angustiava era a espera do momento certo para agir. Percebeu o quanto era imediatista ao esperar esse momento chegar. E que o Tempo não segue os padrões humanos, reserva um momentinho pra cada um.
  Abrandaram-lhe os medos, as dúvidas, os pesos. E ele era passos de dança naquele momento, era liberdade. Era algo além de si. Um instante de contemplação que lhe tirou a tensão de um dia-a-dia um bocado sufocante. 
  Agora era ele mesmo. Livre de todos os preceitos, temores e moldes. Podia se estender a qualquer lado, de qualquer forma. Mas o que lhe tinha acontecido? Que estava tão cabisbaixo, encarando a vida com tanto medo? Os poréns eram dele, existiam independentemente do que acontecesse. Mas por que motivo isso lhe incomodara?
  O instante passou. Logo o alinhamento se desfez. O carro e o avião passaram a ser coisas distintas novamente. O beija-flor voou. E ele ficou ali, emudecido, tentando compreender o tamanho do acontecimento.

(...)