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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Uma Quase Desistência

  Ao ler grandes nomes da literatura, citemos Guimarães Rosa, Dostoiévski, Hermman Hesse, Fernando Pessoa, etc., percebo algumas coisas dignas de nota:
  1: Literatura é uma arte diferenciada.
  Esse é um aspecto que consta em todas as Artes. Ao ouvir a definição de cinema como "sétima arte", bate uma curiosidade, sobre a numeração delas. Riccioto Canudo, em 1912, faz um manifesto que define o cinema como sétima, tendo antes a música (som), a dança (movimento), a pintura (arte bidimensional feita à mão, ao meu ver também se enquadra aqui o desenho), a escultura (tridimensional - onde se encaixa a arquitetura também), o teatro (representado por um ou mais atores), a literatura (lírica, épica, ou dramática), e o cinema (que enquadra todas as outras). Há uma confluência imensa entre todas elas, e atualmente se veem listas de 10 ou mais artes, com o advento dessa tecnologia mais de ponta. 
  Mas não é isso que quero discutir. O que torna a literatura diferenciada (como há aspectos diferenciais em todas as artes, deve haver um aqui) é justamente a forma como o autor coloca as palavras, a emoção que consegue ou não transmitir. Pra escrever algo, precisamos ler bastante, acho que nisso todos concordamos e, se quero escrever ficção, devo ler isso. Atualmente há tanta informação que tudo acaba se misturando e a literatura vira roteiro de cinema. De forma alguma critico o cinema, ou o casamento dos dois, mas convenhamos que as melhores histórias para filmes não são as extremamente literárias, muitas vezes narradas em primeira pessoa, com uns 4 personagens principais, no máximo.
  Novamente me distancio do foco. O que me levou a escrever isso, foi a estranha sensação que me ocorreu há um tempo, a segunda coisa digna de nota:
  2: Eu jamais vou chegar aos pés desses autores.
  Esse pensamento é uma faca de dois gumes, que, se mal interpretado, pode causar alguns danos. Saiu espontaneamente e foi mal formulado. Não que eu queira ser como um escritor, como muitos dizem pejorativamente e sem muito embasamento, embolorado e velho. Tenho 18 anos e vivo no ano de 2014! Mesmo que eu quisesse, não poderia. A vida de cada um o leva a fazer o que faz. Vivo no presente, escreverei o presente.. Mas quem ama ler, há de concordar comigo que a literatura roteiro-de-cinema é um tanto vaga. Bonito, tocante e tal. Mas não falo da história! Falo do diferencial da literatura; a forma como as palavras são organizadas no papel. É a tal "superficialidade bruta que enoja" a que me refiro no poema Minguante que postarei daqui há um tempo.
  Não tenho a intenção de depreciar J.K. Rowling, John Green, Rick Riordan, Nicholas Sparks, Khaled Rosseni, Paulo Coelho, William P. Young e tantos outros escritores best-sellers (quem sou eu pra criticá-los). Comecei minha jornada com eles e sei que muitos também começaram! São histórias lindas que tocam mesmo. 
  Mas é a tal construção da palavra. Talvez eu nunca serei um escritor best-seller, mas não vou abrir mão de seguir a bela escrita dos Mestres pra vender livros. E aqui voltamos ao segundo pensamento! 
  Como faço? Se quero seguir os mestres mas sei que nunca serei como eles? Se sei que jamais vou chegar aos pés deles? Daí veio a minha quase desistência. Por um triz eu não parei de escrever e tirei esse blog do ar. Esse triz se chama alma e a minha está ligada a isso pra sempre. Senti a vontade de parar, pra depois pensar que, se não quero mudar meu teor pra vender e se não consigo escrever como eles, a única saída é ir trilhando meu próprio caminho.
  A faca de dois gumes é a interpretação certa ou errada. Depois de mudar um pouco meu jeito de olhar o pensamento mal formulado e espontâneo.
  Pronto. Só pra desabafar. Obrigado se teve a paciência de ler.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Casamento de Viúva

Deixe-me.
Que gostar de sol
Na mesma intensidade que gostar de chuva
É quase ser bissexual.

Não é todo ser que se embebeda se sol
Nem é todo ser que se envereda em si.
Lapso de loucura, Paulo.
Momento que passou e se foi.

Sou bravo
Sou forte
Sou filho da morte.
Sou o que há de ser
ingerido, que sorte!
E assim sou quase vivo,
Juca Pirama

Dos ventos que sopraram na cara do poeta
Me restou um
Que disse que sou louco.
Pois gostar de sol
E gostar de chuva
É gostar de opostos.

domingo, 23 de março de 2014

Tegredol

Monumento ao Trabalhador - Tomie Othake
  Do banco da imensa praça, Dona Gantina observava as pessoas. Não entendia direito aquela coisa de cada um andar sozinho, muitas vezes cabisbaixo, falando com um fio descendo do ouvido. 
  Dona Gantina não sabia nada sobre política além do que era comentado pelas amigas do tricô. Não sabia nada sobre tecnologia, além de que o botão verde do celular servia pra atender e o vermelho pra desligar.Nada sobre medicina além do que aprendera durante a vida com os costumes populares e com a propaganda de rádio, vinte anos atrás, que repetia que Tegredol era remédio pra doido. Mas ela não sentia falta de nada disso não.
  Ela tinha a vida que queria. Batalhara a vida toda, desde muito antes de ser chamada de "Dona". Quituteira a vida toda, tinha a pele queimada de forno e as mãos calejadas. Atualmente, ela fazia alguns doces ainda, mas só quando dava na telha. Morava com uma sua amiga, Dona Cândida, companhia desde a mocidade. Quando ela parava pra pensar, vira que sua vida não mudara tanto. O que mudou muito foi a cidade. Cresceu demais. A casa continuava a estar onde sempre esteve, frente à praça. Mas a praça não era a mesma, com aquela coisa que colocaram lá.
  Diziam uns ser arte moderna. Outros diziam ser uma linda expressão do intelecto humano. Alguns ainda falavam que era algo que cada pessoa podia enxergar o que quisesse, pois a "obra" representava a vida de cada pessoa de uma forma diferente.
  Não era. Dona Gantina olhava pra coisa nesse momento e decidiu que não era nada disso. Era só um bocado de ferro curvado. As curvas eram até bonitas, mas ela não via nada além disso.
  Alguém dirá que Dona Gantina é burra, mal instruída, ou nem um pouco imaginativa só por não ver algo na coisa? Ela não se importava. Já vivera muito pra isso. Jogou milho pros pombos, riu daquelas pessoas cabisbaixas, com suas tabas tecnológicas, acabou a colcha de tricô, se levantou e foi rebolando feliz da vida pra casa, fazer doce de anelzinho de mamão.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Lembremo-nos

A suavidade dessa existência
Está borriscada, em nós.
Que guardamos dentro d'agente
a mulher-fuligem, forte,
o homem-pedra, suado,
o menino deixado. À sorte.
a menina deixada. De lado.

Foi um grito grandioso
Carimbado nos grilhões de ouro
Que prendem o governo governante.

Sisal e aipim;
o resumo daquela vida bruta
e simples de suor no rosto.
Pau a pique.
Pau à lenha.
Pau em todos, se convenha.

Antepassados.
Dentro desses prédios existem veias
Onde corre o sangue dos desgraçados.
A venda aqui é viável, ali é viávore.
Vi a árvore que passou
de broto a toco.
Pode colocar
Sal a gosto.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Monólogo de um Velho Cansado ou O Sentido

   
   
Sete dias, é o tempo que a senhora vai ficar? Ah, desculpe lhe chamar de senhora, sou mais velho, nem faz sentido mais. Sete dias é bom; em sete dias o mundo foi criado e no sétimo dia Deus descansou. Vai descansar no sétimo dia também? Eu nem sei mais nada... Tanto livro nesse lugar e nem sei. É que, pra ser sincero, não sei ler. Tenho a audácia de dizer isso apesar de ter lido cada um dos livros dessa biblioteca desse asilo, sem contar os que li em toda a vida.
   É que meu analfabetismo não é de palavras escritas. É de algo a mais, algo que nem com palavras pode ser dito. Sou um analfabeto das emoções. Não sabes o quanto eu peno pra compreender algumas coisas.
   Desculpe a bipolaridade; sou assim mesmo. Nestes 89 anos fui assim, não é possível que eu mude daqui pra frente, não é? É que tenho uma alma bagunçada, minha jovem. E sabe o que é pior? Sei que talvez eu já esteja próximo da morte - ela parece mais próxima aqui dessa cadeira de rodas - e ainda não entendi a minha missão nessa vida aqui. Desculpe se você não acredita nisso, mas eu creio que viemos nesse mundo para cumprir alguma missão. 
   Isso me lembrou um dia quente há muito tempo atrás, talvez mais do que eu queria. Foi um dia estranho, minha cara. Eu acordei com um desânimo, com uma nuvem pesando pesada sobre meus ombros. Não sei dizer o que era. Acho que algo espiritual mesmo. Ah, minha filha. Você não acredita nisso também? Tudo bem, não vou discutir. O fato é que o dia correu vagarosamente, eu pensando em morte, eu pensando em como seria mais fácil morrer. Era uma inquietação imprópria, bárbara e muito densa; um rapaz de 19 anos pensando em testamento e em morte. Nesse dia, não lembro qual nem por que, mas uma porta tinha sido fechada na minha vida. Talvez uma das primeiras portas que se fecharam numa longuíssima jornada. A sofreguidão da idade me fez ver aquela porta fechada como todas as portas fechadas e a vontade de correr mundo teve de ser adiada. Hoje digo a você: seria sim muito mais fácil morrer ali. E morrer jovem, para que ninguém se lembrasse de mim como um velho decrépito, como você há de se lembrar. Mas eu não teria vivido os outros 70 anos da minha vida e não teria visto o quanto vi. E seria um desperdício, sabe? Vi coisas horrendas, mas vi coisas magníficas, de amor, de carinho de incondicionalismos.
   E não me arrependo de não ter morrido aquele dia. Mais tarde, no mesmo dia, eu me encontrei com pessoas que me fizeram sentir amado. E tudo passou, todos os desejos perderam o sentido.
   Mas ainda não sei o sentido da minha vinda, da minha vida. Eu te contei muita coisa agora, menina. Não que tenha contado os detalhes, mas contei como foi durante minha estadia aqui. E agora, engraçado, estou me sentindo em paz...
   Creio que está na minha hora. Talvez o sentido da minha vida tenha sido chegar até esse momento e te contar isso. Não sei ao certo o que você está passando, minha linda, mas eu sei que minha história deve ter te ajudado de alguma forma. Agora saia. Me deixe aqui nessa cadeira de rodas com os livros que me fizeram companhia por toda a vida. Não adianta protestar! Não fique, por favor! É o último pedido de um velho no fim da vida. À tarde venha buscar minha casca, creio que não precisarei dela.
  Por que me olha com esses olhos lacrimosos? Todos os que eu amava já se foram. Ficar aqui adiantará no quê? Ah, quer ficar mesmo assim. Tudo bem, incline um pouco mais minha cadeira, por favor. Obrigado. Segure minha mão então e me deixe ir. Não soluce, querida, chore silenciosamente. Estou feliz. 

(...)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma Menina

  Molar brincava com a boneca pela nona vez naquela mesma noite. Era curioso ver uma garota daquela idade ter tanta destreza com trabalhos manuais. Trocava as roupas da boneca com incrível e num tempo recorde, tudo à luz da pequena lanterna sob o lençol. Brincava com a boneca como se o pano grosso e espesso que era sua pele fosse o plástico rosa e delicado daquela Barbie que vira na loja de brinquedos, brincava como se seus olhos de botão e sua boca bordada fossem parte do rosto da mais bela mulher que conhecia.
  Era curioso ver aquela cena e, no entanto, ninguém via. Era sozinha no mundo e isso a amedrontava muito, talvez por ser tão óbvio.
  Por esse motivo, Molar gostava também de espetar agulhas na sua boneca.
  Não que tivesse alguém específico em mente... faz parte de estar sozinha no mundo. Mas ela gostava de imaginar que estava se vingando de seus coleguinhas que a desprezavam, de seus professores que a subestimavam, dos inspetores que a prendiam, dos pais que a abandonaram, do mundo que a recusava, enfim. Espetava agulhas pois não tinha algo mais violento em mente. Não havia nenhuma vingança propriamente dita ao seu alcance, então enfiava agulhas na boneca.
  A boneca era muito peculiar. Era uma tentativa de fazer uma boneca fina e delicada a partir de um saco de estopa. Uma tentativa que deu errado, obviamente, e a delicadeza ficou muito macabra. Os olhos eram botões, cada um de um tamanho e um tom diferente, o maior brilhante e o menor fosco.
  O nariz era o encontro das duas metades de tecido, dividindo o rosto da boneca ao meio. A boca não passava de um coraçãozinho vermelho mal bordado.
  De braços e pernas disformes e um cablo de barbante laranja curto e puído, a boneca assustava a todas as crianças. Exceto a Molar. A garotinha de 5 anos via naquela boneca a família que nunca tivera. Adorava imaginar a procedência dela:
  -Foi da minha avó. - dissera uma vez a uma moça loira - A mãe dela que fez. Aí ela deu pra minha vó que deu pra minha mãe que me deu.
  Mesmo assim gostava de espetar agulhas nela. Ela tinha a grande vantagem de não questionar o motivo das coisas. 
  "Quem conta um conto aumenta um ponto." Encabulada com essa expressão, Molar aprendeu a sempre aumentar uma pessoa na família ao contar a história. Assim, a mesma loira escutou o mesmo caso, um mês depois, como a boneca estando na família da menina há 9 gerações. Nos apoiamos em ficções quando nossa realidade não vai tão bem.
  E Molar não entendia sua história. Segundo Dona Clávis, que sempre vinha uma vez por semana com seu coque impecável e seu batom laranja da cor do cabelo da boneca quando limpo, a menina fora encontrada numa manta com a boneca, na porta do Instituto. 
  Mas ela preferia não questionar as coisas. 
  Ao invés de se estender nesses assuntos, Molar pegou a boneca, foi ao pátio do Instituto e pôs-se a brincar feliz da vida.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Ato Opaco

É paz? – Ele pensa
Essa confusão, essa confluência enigmática que perturba a alma...
Não pode ser paz.
É indecisão, então?
O mesmo fatídico fato que sempre se repete...
Que sempre insiste em se manifestar...

Desvão. Em silêncio, ele cai.
Um mundo por seres obscuros habitado.
E o assombram todos de uma vez
Monstros que desde o início acompanham a humanidade.
Medo, moça, isso que ele sente.
Por isso a luz turva. Pra esconder.

A máscara de Arlequim o cobre a metade do rosto
A de Jekyll cobre a outra.
Numa escuridão burtônica
O moço se dissolve e a aquarela perde a cor.

Do mirante submerso olha o horizonte das memórias.
Ainda vale à pena?
Shhhhhh…
Be quiet, my dear, be quiet.

Pois isso nunca vai mudar, vai?


(...)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ensaio do autor sobre o Novo

  O novo. Na virada de ano as pessoas recepcionam o ano novo com disposição e esperança. Por quê?
  Por que existem tantas variações de como as pessoas encaram o novo em outros pontos da vida? Novo pode ser amedrontador. Novo pode ser chance. Pode ser triste, feliz. Tudo dependendo da forma como for encarado. Não estou aqui para fazer estudo sociológico ou nada parecido, afinal não sou ninguém nessa área para que possa ficar dando uma de cientista social. Sou um mero escritor sonhador, que observa alguns detalhes do mundo ao seu redor.
  O medo que muitos têm em relação ao novo desaparece no Reveillon. Me pergunto o motivo. A leve amnésia que a adrenalina da contagem regressiva provoca? O álcool? As superstições? As promessas? Não acho que esteja entre estes. A energia que flui no fim de ano, englobando também o Natal é bastante incomum e eu sempre tenho a oportunidade de vivenciar provas disso. Atos incomuns de ajuda e amor são feitos sem pensar muito. As pessoas ficam mais humanas. Como não acreditar que há qualquer coisa além de nós, ao menos nessa época?
  Mas não quero convencer ninguém de nada. O Novo decerto é algo diferente. 
  Aposto que você que perde seu tempo lendo essa merda aqui (há outras coisas bem melhores neste blog, perca seu tempo com elas - cada palavra sublinhada é um link pra um texto melhor, meu leitor, isso é só uma inflexão que quis compartilhar com algum louco qualquer) tem alguns planos e sonhos pra 2014. Espera uma reviravolta na sua vida, seja a financeira, a emocional. É bom que lembre então de recepcionar essas mudanças que tanto almeja como recepcionou o novo ano. Não digo pra festejar com champanhe e fogos de artifício, mas lembre-se da sensação que teve diante do Novo que é o ano de 2014.