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domingo, 25 de maio de 2014

Olho Preto

Tudo parece nublado.
E o sopro é só desabafo.
Ferida que reabre imponentemente.


Mixagem de covardia, medo e destino.
Paciência que não há.
Desestabiliza no voo as penas
de pássaro horrendo.

Versos que serão esquecidos se escrevem pra lembrar
da luta que só há de ser vencida
quando a túnica do orgulho se rasgar.
E relembram distopicamente
que as coisas acontecem por um motivo.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Pipoqueiro

  Um dia, Chico relaxava ao lado do painel que era seu ganha-pão, cheio de brincos, colares, pulseiras e anéis. Era uma tarde ensolarada de uma praça qualquer. Ele observava os transeuntes apressados e agradecia por não fazer mais parte daquilo. Foi quando o diálogo de um grupo de adolescentes no banco ao lado lhe chamou atenção:
  -Me pergunto - dizia um dos adolescentes - se os vendedores das lojas de móveis lembram-se de muitos fregueses. - os outros riram, não entendendo a profundidade da indagação do primeiro. Ele continuou - É sério! Imaginem um casal jovem comprando a mobília de sua casa, até então vazia. É a realização de um sonho! O que estes móveis representarão para eles! Neles, eles construirão um lar, edificarão uma família! Quantas e quantas vezes vão se sentar àquela mesa que estão comprando agora, quantas vezes se jogarão naquele sofá, cansados, e tirarão os sapatos? Quantas vezes vão arrumar as roupas dentro daquele guarda-roupas?
  -Quantas vezes transarão naquela cama?
  -Ah, cale a boca.
  -Isso também! Mas entenderam o meu ponto de vista? Será que o vendedor tem noção de que o  que ele vende ali é o lar que vai acompanhar o cotidiano daquele casal por anos? Será que esse vendedor se lembra dos olhares e dos sorrisos dos seus clientes?
  Um senhor idoso ia passando por ali e ouviu estas últimas palavras. Voltou à turma e pediu licença para sentar-se com eles por alguns instantes:
  -Perdoem minha intromissão, meus jovens, e não me julguem sem lucidez. Sou velho e sem muito horizonte na minha frente, ao contrário de vocês. Não pude deixar de ouvir o comentário desse curioso e perspicaz amigo de vocês. Estava falando sobre qual vendedor, meu rapaz?
  -Sobre o de móveis.
  -Do de móveis não sei lhe falar. Só digo-lhes que o único vendedor que se lembra dos seus clientes é o que faz o que faz por amor. Fui vendedor de balas, pipocas e algodões-doces. Pode parecer exagero, mas lembro-me do sorriso de cada criança e do abraço de cada casal que comprou algo na minha mão. Não posso dizer que lembro-me com detalhes de todos, pois foram 20 anos, mas guardo-os todos aqui no meu coração. Talvez pela sincera felicidade e satisfação no rosto de cada um. Vi meninos e meninas crescerem e voltarem a mim com as pessoas que amaram. O vendedor de móveis que ama vender móveis talvez se lembre do sorriso de alguns clientes e os guarde no coração. Quando atingimos uma meta, seja comprar uma bala, seja comprar a mobília, nosso sorriso é tão sincero e inocente quanto o de uma criança. É a beleza de ser humano.Quando se vive por coisas pequenas, quando se sobe um pequeno degrau de cada vez. Agora, tenho que ir que Glória me espera. Até mais!
  O velho se levantou e deixou os adolescentes e Chico silenciosos a refletir. Levantou-se da vida deles para nunca mais aparecer, e aí ficou a beleza e o mistério. Quem era esse velho? O que vivera? Quantas pessoas ajudara, com quantas brigara? A vida de Chico estava cheia de encontros assim. Como duas formigas que andam, se cumprimentam e seguem seu caminho, apesar de pertencerem ao mesmo formigueiro, que é ser humano, com todas as suas semelhanças e unicidades.
  Como que para lembrar Chico Samba que ele tinha um certo compromisso com a vida que escolhera, uma moça de saia estava parada defronte o painel e perguntou:
  -Quanto é este colar?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tricotando

  -Já foi a Pasárgada, mulher?
  -Jamais, nem quero ir. Não acredito em poesia, não acredito em nada. Só acredito que são todos sonhadores. Quando se trata de futuro, ninguém sabe esperar muita coisa e, quando um sabe esperar, espera a coisa errada e quebra a cara, é terrível. Foi nesse mundo corrupto e inconveniente mesmo que minha filha nasceu e eu não consigo acreditar que isso seja bom. Não foi em Pasárgada, não foi em qualquer outra Terra. Já estava a mercê das bombas assim que respirou pela primeira vez. Não acredito que haja vida em outro planeta e isso é triste, pois a gente está destruindo o único que há. 
  -Eu já acredito que haja.
  -E isso cancela o nosso erro?
  -Talvez acabemos conosco. Isso é um presente pro resto do universo.
  -Ontem foi Marta, hoje é Camila, amanhã talvez seja Otávia. Não tem vergonha, mulher? De mudar de nome e de personalidade assim? Eu mesma não mudo, não; sou simplesmente eu. 
  -Seu discurso parece profundo, sabia? pra quem não te conhece bem. Parece um discurso profundo e crítico, talvez mesmo inteligente. Não entendeu até hoje que mudar de nome, pra mim, é vida? É necessário não ser conhecida. É necessário conhecer muitas facetas de mim mesma. Fico feliz em ser assim. Chama-me de Mulher, estarei satisfeita.
  -Eu, prefiro ser eu.
  -E tem muita dúvida de quem é, ainda assim.
  -Mas me conheço melhor que você, que muda de nome. Eu convivo comigo mesma há muito mais tempo do que você já conviveu com qualquer uma de suas facetas. É terrível a humanidade porque tem muitas perguntas. Tendo muitas perguntas, busca sempre por respostas e não se aquieta jamais. Nós, velhas, já nos cansamos de perguntar e agora respondemos a várias perguntas dos outros jovens.
  -É que perto da morte a gente fica mais sábia.
  -É metafísica a morte.
  -É.

sábado, 19 de abril de 2014

Minguante

Chora.
Borra a maquiagem empoeirada.
Cadê sua cor? Onde estão os pasquins?
Uma superficialidade bruta que enoja!

Braços fortes, chora.
Braços flácidos, chora.
Chora tanto, ele, ela!
Comendo um caviar de fel, coitados.

Tá encardido, encarquilhado.
Um sopro de meditação falha.
Simplicidade indecifrável nessa solidão imunda.
Né não? Não?
Caio chorando.

De promotor a réu. De holofote a apagão.
De inferno a céu. De plateia a atração.
Julgando todos os que choram
numa iludida presunção
de quem ainda não viu nada da vida.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Uma Quase Desistência

  Ao ler grandes nomes da literatura, citemos Guimarães Rosa, Dostoiévski, Hermman Hesse, Fernando Pessoa, etc., percebo algumas coisas dignas de nota:
  1: Literatura é uma arte diferenciada.
  Esse é um aspecto que consta em todas as Artes. Ao ouvir a definição de cinema como "sétima arte", bate uma curiosidade, sobre a numeração delas. Riccioto Canudo, em 1912, faz um manifesto que define o cinema como sétima, tendo antes a música (som), a dança (movimento), a pintura (arte bidimensional feita à mão, ao meu ver também se enquadra aqui o desenho), a escultura (tridimensional - onde se encaixa a arquitetura também), o teatro (representado por um ou mais atores), a literatura (lírica, épica, ou dramática), e o cinema (que enquadra todas as outras). Há uma confluência imensa entre todas elas, e atualmente se veem listas de 10 ou mais artes, com o advento dessa tecnologia mais de ponta. 
  Mas não é isso que quero discutir. O que torna a literatura diferenciada (como há aspectos diferenciais em todas as artes, deve haver um aqui) é justamente a forma como o autor coloca as palavras, a emoção que consegue ou não transmitir. Pra escrever algo, precisamos ler bastante, acho que nisso todos concordamos e, se quero escrever ficção, devo ler isso. Atualmente há tanta informação que tudo acaba se misturando e a literatura vira roteiro de cinema. De forma alguma critico o cinema, ou o casamento dos dois, mas convenhamos que as melhores histórias para filmes não são as extremamente literárias, muitas vezes narradas em primeira pessoa, com uns 4 personagens principais, no máximo.
  Novamente me distancio do foco. O que me levou a escrever isso, foi a estranha sensação que me ocorreu há um tempo, a segunda coisa digna de nota:
  2: Eu jamais vou chegar aos pés desses autores.
  Esse pensamento é uma faca de dois gumes, que, se mal interpretado, pode causar alguns danos. Saiu espontaneamente e foi mal formulado. Não que eu queira ser como um escritor, como muitos dizem pejorativamente e sem muito embasamento, embolorado e velho. Tenho 18 anos e vivo no ano de 2014! Mesmo que eu quisesse, não poderia. A vida de cada um o leva a fazer o que faz. Vivo no presente, escreverei o presente.. Mas quem ama ler, há de concordar comigo que a literatura roteiro-de-cinema é um tanto vaga. Bonito, tocante e tal. Mas não falo da história! Falo do diferencial da literatura; a forma como as palavras são organizadas no papel. É a tal "superficialidade bruta que enoja" a que me refiro no poema Minguante que postarei daqui há um tempo.
  Não tenho a intenção de depreciar J.K. Rowling, John Green, Rick Riordan, Nicholas Sparks, Khaled Rosseni, Paulo Coelho, William P. Young e tantos outros escritores best-sellers (quem sou eu pra criticá-los). Comecei minha jornada com eles e sei que muitos também começaram! São histórias lindas que tocam mesmo. 
  Mas é a tal construção da palavra. Talvez eu nunca serei um escritor best-seller, mas não vou abrir mão de seguir a bela escrita dos Mestres pra vender livros. E aqui voltamos ao segundo pensamento! 
  Como faço? Se quero seguir os mestres mas sei que nunca serei como eles? Se sei que jamais vou chegar aos pés deles? Daí veio a minha quase desistência. Por um triz eu não parei de escrever e tirei esse blog do ar. Esse triz se chama alma e a minha está ligada a isso pra sempre. Senti a vontade de parar, pra depois pensar que, se não quero mudar meu teor pra vender e se não consigo escrever como eles, a única saída é ir trilhando meu próprio caminho.
  A faca de dois gumes é a interpretação certa ou errada. Depois de mudar um pouco meu jeito de olhar o pensamento mal formulado e espontâneo.
  Pronto. Só pra desabafar. Obrigado se teve a paciência de ler.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Casamento de Viúva

Deixe-me.
Que gostar de sol
Na mesma intensidade que gostar de chuva
É quase ser bissexual.

Não é todo ser que se embebeda se sol
Nem é todo ser que se envereda em si.
Lapso de loucura, Paulo.
Momento que passou e se foi.

Sou bravo
Sou forte
Sou filho da morte.
Sou o que há de ser
ingerido, que sorte!
E assim sou quase vivo,
Juca Pirama

Dos ventos que sopraram na cara do poeta
Me restou um
Que disse que sou louco.
Pois gostar de sol
E gostar de chuva
É gostar de opostos.

domingo, 23 de março de 2014

Tegredol

Monumento ao Trabalhador - Tomie Othake
  Do banco da imensa praça, Dona Gantina observava as pessoas. Não entendia direito aquela coisa de cada um andar sozinho, muitas vezes cabisbaixo, falando com um fio descendo do ouvido. 
  Dona Gantina não sabia nada sobre política além do que era comentado pelas amigas do tricô. Não sabia nada sobre tecnologia, além de que o botão verde do celular servia pra atender e o vermelho pra desligar.Nada sobre medicina além do que aprendera durante a vida com os costumes populares e com a propaganda de rádio, vinte anos atrás, que repetia que Tegredol era remédio pra doido. Mas ela não sentia falta de nada disso não.
  Ela tinha a vida que queria. Batalhara a vida toda, desde muito antes de ser chamada de "Dona". Quituteira a vida toda, tinha a pele queimada de forno e as mãos calejadas. Atualmente, ela fazia alguns doces ainda, mas só quando dava na telha. Morava com uma sua amiga, Dona Cândida, companhia desde a mocidade. Quando ela parava pra pensar, vira que sua vida não mudara tanto. O que mudou muito foi a cidade. Cresceu demais. A casa continuava a estar onde sempre esteve, frente à praça. Mas a praça não era a mesma, com aquela coisa que colocaram lá.
  Diziam uns ser arte moderna. Outros diziam ser uma linda expressão do intelecto humano. Alguns ainda falavam que era algo que cada pessoa podia enxergar o que quisesse, pois a "obra" representava a vida de cada pessoa de uma forma diferente.
  Não era. Dona Gantina olhava pra coisa nesse momento e decidiu que não era nada disso. Era só um bocado de ferro curvado. As curvas eram até bonitas, mas ela não via nada além disso.
  Alguém dirá que Dona Gantina é burra, mal instruída, ou nem um pouco imaginativa só por não ver algo na coisa? Ela não se importava. Já vivera muito pra isso. Jogou milho pros pombos, riu daquelas pessoas cabisbaixas, com suas tabas tecnológicas, acabou a colcha de tricô, se levantou e foi rebolando feliz da vida pra casa, fazer doce de anelzinho de mamão.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Lembremo-nos

A suavidade dessa existência
Está borriscada, em nós.
Que guardamos dentro d'agente
a mulher-fuligem, forte,
o homem-pedra, suado,
o menino deixado. À sorte.
a menina deixada. De lado.

Foi um grito grandioso
Carimbado nos grilhões de ouro
Que prendem o governo governante.

Sisal e aipim;
o resumo daquela vida bruta
e simples de suor no rosto.
Pau a pique.
Pau à lenha.
Pau em todos, se convenha.

Antepassados.
Dentro desses prédios existem veias
Onde corre o sangue dos desgraçados.
A venda aqui é viável, ali é viávore.
Vi a árvore que passou
de broto a toco.
Pode colocar
Sal a gosto.