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terça-feira, 1 de julho de 2014

Nó

Ilustração de Karla Ruas
Vem maré alta.
Ele nada, cansa os braços.
Muda o estilo, se adéqua ao mar...
Talvez dê conta de mais um pouco.

Lírica sofrida. Autoflagelação.
Agora entende o que disse um amigo
sobre se rasgar constantemente.
Mais uma braçada.
Ri-se por ter usado o mar tantas vezes
 como metáfora
e agora agonizar nele

Mais uma braçada.
A vida é cruel. Exige força que a gente não tem.
Se ao menos eu fosse corajoso a ponto de conseguir desistir...!
Virão marés ainda mais altas.

Pessimista essa visão.
Mas será tão bom olhar para trás
e ver que a maré que enfrentei ontem é tão minúscula!

É efêmero. Tudo. Cruel e efêmero.
Só nos prepara pra aguentar ainda mais
e nos faz mais inquietos por fazer o bem.


Mais uma braçada.

(...)

sábado, 14 de junho de 2014

Patchouli

  Da janela da sua quitinete, com o copo de suco pra curar ressaca na mão, observando os barcos indo e vindo na Veneza que ele tanto amava, e acompanhando um belo por do sol rosado, Gular entendeu o verdadeiro sentido do tal jargão "Só se dá valor depois que se perde". O álcool tinha saído do corpo durante o sono e deixara sua cabeça explodindo de uma pulsante dor. Os fragmentos de memória não se encaixavam de forma alguma. Não achava que bebera tanto, mas as loucuras de ontem arrombaram sua porta e se sentaram no sofá inconvenientemente, como um vizinho que acha que é seu amigo e ficaram encarando ele com olhos julgadores.
  Gular acredita na capacidade que as coisas têm de desandar. Acredita em energias, boas e ruins, que podem influenciar as pessoas. Acredita que a merda que as pessoas influenciadas por energias negativas e por álcool têm de fazer não tem limites.
  Tirou os olhos dos barcos e do céu e se voltou pra escrivaninha, onde os lápis e cadernos estavam jogados junto com bitucas de cigarro e o incensário. Decidiu escrever um pouco, apesar de que o último texto que produzira fora a história de Pepe, o caracol. Achou um incenso jogado no chão, colocou-o no incensário e o acendeu, deixando o aroma agradável do Patchouli se espalhar aos poucos no ar. Ao escrever duas palavras, tudo o que vivera até ali naquele capítulo de sua vida voltou à tona com uma rapidez brutal e foi tudo pro papel.
  Percebeu naquele momento que a Torre de Pisa poderia ter caído, a Europa dizimada por uma bomba nuclear, a Lua nunca mais aparecer e isso não teria muito significado nada pra ele.
  Há algumas semanas, conhecera um moço. De tudo que era desproposital, nasceu algo. Gostou muito dele. E foi recíproco. Isso significou algo pra ele: significou a fraqueza óbvia de Gular em tentar controlar os seus sentimentos. Foi o fato de que Gular estava novamente caindo em amor, coisa que ele prometera não fazer tão fácil. Mas o jeito, o cheiro, o gosto, o sorriso, a estranheza e o mistério que emanavam do moço eram tão únicos e belos que foi meio involuntário criar alguma expectativa.
  Viu defeitos. Mas viu qualidades que superaram os defeitos.
  O álcool se misturou com açúcar e com a tal da energia negativa que estava rodando no ar e o drink foi amargo. Por motivos poucos e imaginados, Gular levantara o punho contra o moço e as ondulações repercutiram em todos os outros âmbitos de sua vida.
  Olhou pra cima. A fumaça de patchouli continuava a subir e as lágrimas rolaram descarrilhadas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Alma Velha

  As juntas já doíam. As físicas e as psicológicas. Era tempo demais sentada pra ela não enlouquecer. O problema nem era estar sentada, era o que ela fazia sentada. Desenhar sempre fora para ela um hobbie para se fazer no meio de gente, com conversa, barulho. Do contrário, ela começava a pensar. E ela não conseguia encarar seus pensamentos. No dia inteiro ela tinha feito cinco desenhos bastante trabalhosos, mas não conseguia deixar pensar que estava ociosa, que não estava fazendo nada pra melhorar a vida.
  Era um relacionamento que não tinha muita coisa a ver com ela, aquele que ela tinha. Coisa bígama, polígama, quem sabe, e nem podia fazer nada pra que mudasse; ela amava tanto que preferia passar por cima do orgulho e da forma de pensar. Ela pensava não ser desse século. Era moça jovem com alma de gente que já se encarnara há muito tempo, ou muitas vezes. Anos 20! Século XVIII! Porque não nascera naquela época? Se bem que não, naquela época seria obrigada a usar aquelas roupas quentes. E a curvar-se ante aos homens. Ah, não. Nascera na época certa, sim. Decidiu se levantar um pouco do desenho pra olhar em volta, respirar. Talvez ir num lugar cheio de gente e continuar desenhando.
  Determinada, juntou seus lápis e papéis, indo direto à praça mais próxima. Gostava bastante daquele lugar.
  Era moça tão imaginativa, que amava sair do seu corpo em imaginação e ver as maiores maravilhas mundo afora. Odiava a situação, mas fora presa na terra por um amor mal resolvido, ou bem resolvido, que para ela era mal resolvido. Era tão jovem! Tinha tanto ainda a ver, a ouvir! Mas já vivera tanto... Viajara, fugira, sonhara, tivera o coração despedaçado. O mal dela era recusar-se a aceitar sua juventude.
  Ao sentar-se num dos bancos da praça, com seus óculos, anéis e botas de todo-dia, percebeu uma pequena foto antiga no chão à sua frente. Em sépia, retratava uma menina sorridente, em frente a um matagal, de uniforme escolar à moda antiga. Curiosa, pegou a foto.
  Ao virar atrás, nada viu. Nenhuma, data, nada escrito. Era um pedacinho de alguém que fora perdido. Simplesmente uma lembrança que caíra da bolsa de algum dos apressados transeuntes e agora, por acaso, viera parar com ela. Sentiu-se feliz. Sentiu saudade da infância daquela menina, mesmo que ela nem soubesse quem a menina era. Sentiu falta de algo que nunca tivera, e não soube explicar o porquê. Pensou que talvez fosse sua alma de velha que se conectou com a foto.
  Instigda, começou a divagar sobre quem seria a menina. Quem teria perdido a foto? Um primo dela? O seu filho? Ela própria? Será que essa pessoa sentia falta da foto? Aquela roupinha, aquele sorriso. O que essa foto registrava? Um primeiro dia de aula, um uniforme novo, um penteado diferente, talvez? E aquele lugar? Sua casa, sua escola, um calçamento qualquer?
  A desenhista, imediatamente esboçou no papel a foto, em tamanho bastante ampliado e pôs-se logo a trabalhar nos detalhamentos. Não conseguia deixar de pensar na menininha da foto. Estaria ela ainda viva? Será que ela sofrera de amor também, como sofria a moça?
  Um dedo cutucou timidamente a desenhista. Era um jovem barbudo, meio misterioso, de óculos quadrados.
  -O que desenha?
  -Essa foto.
  -Posso me sentar?
  -Claro.
  Sentado ao lado dela, o jovem passou a mão pelos cabelos e perguntou se a foto, por acaso estava no chão.
  -Sim. Bem ali. - e ela apontou - Oh! Era sua? - logo ela se arrependeu de usar o verbo no passado, mas era como se a foto já fosse parte da história dela!
  -Sim. É minha mãe. O primeiro dia de aula dela na escolinha, está usando o uniforme pela primeira vez. É minha única recordação dela. Ela mora do outro lado do mundo e eu gosto muito de olhar pra essa foto quando me bate a saudade. O amor dela sempre me recarrega as forças.
  -Oh, me perdoe! Tome-a de volta! - e estendeu a foto, sinceramente torcendo para que o menino soltasse um heroico não-o-que-é-isso-pode-ficar-com-ela. Mas ele apanhou a foto, abriu a mochila, agradeceu, elogiou o desenho, disse que se ela quisesse, podia terminar e saiu.
  O desenho da foto nunca foi concluído, mas posteriormente, o rascunho foi emoldurado e posto sobre a cama dela. E ela sorriu ao perceber que o amor, mesmo que torto, não a prendia na terra, mas proporcionava uma liberdade imensa pra que ela pudesse voar. A menininha da foto crescera e tivera um filho, que a amava e morava do outro lado do mundo. Ainda alguma esperança havia para ela.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Virtual

Ilustração de Guilherme Fonseca
Arqueada, ela vem seguindo.
Contorcendo-se na própria pele.
Afogando-se nos próprios cabelos.
O cansaço já nem incomoda tanto
e o burburinho não para.

Arqueadas, suas sobrancelhas cuidadas
perguntam a nós "como?"
Cabisbaixa, nossa geração não responde,
contorcendo-se numa lógica furada.

Arqueadas, as nuvens observam
o clima, o ofício e a ofensa.
O dilúvio comportamental pasma
uma sociedade estável e doente.

Arqueado, o corpo dela permanece,
pausado, sem conexão.
Agora tudo é simples.
Agora não há um só vagão.


domingo, 25 de maio de 2014

Olho Preto

Tudo parece nublado.
E o sopro é só desabafo.
Ferida que reabre imponentemente.


Mixagem de covardia, medo e destino.
Paciência que não há.
Desestabiliza no voo as penas
de pássaro horrendo.

Versos que serão esquecidos se escrevem pra lembrar
da luta que só há de ser vencida
quando a túnica do orgulho se rasgar.
E relembram distopicamente
que as coisas acontecem por um motivo.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Pipoqueiro

  Um dia, Chico relaxava ao lado do painel que era seu ganha-pão, cheio de brincos, colares, pulseiras e anéis. Era uma tarde ensolarada de uma praça qualquer. Ele observava os transeuntes apressados e agradecia por não fazer mais parte daquilo. Foi quando o diálogo de um grupo de adolescentes no banco ao lado lhe chamou atenção:
  -Me pergunto - dizia um dos adolescentes - se os vendedores das lojas de móveis lembram-se de muitos fregueses. - os outros riram, não entendendo a profundidade da indagação do primeiro. Ele continuou - É sério! Imaginem um casal jovem comprando a mobília de sua casa, até então vazia. É a realização de um sonho! O que estes móveis representarão para eles! Neles, eles construirão um lar, edificarão uma família! Quantas e quantas vezes vão se sentar àquela mesa que estão comprando agora, quantas vezes se jogarão naquele sofá, cansados, e tirarão os sapatos? Quantas vezes vão arrumar as roupas dentro daquele guarda-roupas?
  -Quantas vezes transarão naquela cama?
  -Ah, cale a boca.
  -Isso também! Mas entenderam o meu ponto de vista? Será que o vendedor tem noção de que o  que ele vende ali é o lar que vai acompanhar o cotidiano daquele casal por anos? Será que esse vendedor se lembra dos olhares e dos sorrisos dos seus clientes?
  Um senhor idoso ia passando por ali e ouviu estas últimas palavras. Voltou à turma e pediu licença para sentar-se com eles por alguns instantes:
  -Perdoem minha intromissão, meus jovens, e não me julguem sem lucidez. Sou velho e sem muito horizonte na minha frente, ao contrário de vocês. Não pude deixar de ouvir o comentário desse curioso e perspicaz amigo de vocês. Estava falando sobre qual vendedor, meu rapaz?
  -Sobre o de móveis.
  -Do de móveis não sei lhe falar. Só digo-lhes que o único vendedor que se lembra dos seus clientes é o que faz o que faz por amor. Fui vendedor de balas, pipocas e algodões-doces. Pode parecer exagero, mas lembro-me do sorriso de cada criança e do abraço de cada casal que comprou algo na minha mão. Não posso dizer que lembro-me com detalhes de todos, pois foram 20 anos, mas guardo-os todos aqui no meu coração. Talvez pela sincera felicidade e satisfação no rosto de cada um. Vi meninos e meninas crescerem e voltarem a mim com as pessoas que amaram. O vendedor de móveis que ama vender móveis talvez se lembre do sorriso de alguns clientes e os guarde no coração. Quando atingimos uma meta, seja comprar uma bala, seja comprar a mobília, nosso sorriso é tão sincero e inocente quanto o de uma criança. É a beleza de ser humano.Quando se vive por coisas pequenas, quando se sobe um pequeno degrau de cada vez. Agora, tenho que ir que Glória me espera. Até mais!
  O velho se levantou e deixou os adolescentes e Chico silenciosos a refletir. Levantou-se da vida deles para nunca mais aparecer, e aí ficou a beleza e o mistério. Quem era esse velho? O que vivera? Quantas pessoas ajudara, com quantas brigara? A vida de Chico estava cheia de encontros assim. Como duas formigas que andam, se cumprimentam e seguem seu caminho, apesar de pertencerem ao mesmo formigueiro, que é ser humano, com todas as suas semelhanças e unicidades.
  Como que para lembrar Chico Samba que ele tinha um certo compromisso com a vida que escolhera, uma moça de saia estava parada defronte o painel e perguntou:
  -Quanto é este colar?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tricotando

  -Já foi a Pasárgada, mulher?
  -Jamais, nem quero ir. Não acredito em poesia, não acredito em nada. Só acredito que são todos sonhadores. Quando se trata de futuro, ninguém sabe esperar muita coisa e, quando um sabe esperar, espera a coisa errada e quebra a cara, é terrível. Foi nesse mundo corrupto e inconveniente mesmo que minha filha nasceu e eu não consigo acreditar que isso seja bom. Não foi em Pasárgada, não foi em qualquer outra Terra. Já estava a mercê das bombas assim que respirou pela primeira vez. Não acredito que haja vida em outro planeta e isso é triste, pois a gente está destruindo o único que há. 
  -Eu já acredito que haja.
  -E isso cancela o nosso erro?
  -Talvez acabemos conosco. Isso é um presente pro resto do universo.
  -Ontem foi Marta, hoje é Camila, amanhã talvez seja Otávia. Não tem vergonha, mulher? De mudar de nome e de personalidade assim? Eu mesma não mudo, não; sou simplesmente eu. 
  -Seu discurso parece profundo, sabia? pra quem não te conhece bem. Parece um discurso profundo e crítico, talvez mesmo inteligente. Não entendeu até hoje que mudar de nome, pra mim, é vida? É necessário não ser conhecida. É necessário conhecer muitas facetas de mim mesma. Fico feliz em ser assim. Chama-me de Mulher, estarei satisfeita.
  -Eu, prefiro ser eu.
  -E tem muita dúvida de quem é, ainda assim.
  -Mas me conheço melhor que você, que muda de nome. Eu convivo comigo mesma há muito mais tempo do que você já conviveu com qualquer uma de suas facetas. É terrível a humanidade porque tem muitas perguntas. Tendo muitas perguntas, busca sempre por respostas e não se aquieta jamais. Nós, velhas, já nos cansamos de perguntar e agora respondemos a várias perguntas dos outros jovens.
  -É que perto da morte a gente fica mais sábia.
  -É metafísica a morte.
  -É.

sábado, 19 de abril de 2014

Minguante

Chora.
Borra a maquiagem empoeirada.
Cadê sua cor? Onde estão os pasquins?
Uma superficialidade bruta que enoja!

Braços fortes, chora.
Braços flácidos, chora.
Chora tanto, ele, ela!
Comendo um caviar de fel, coitados.

Tá encardido, encarquilhado.
Um sopro de meditação falha.
Simplicidade indecifrável nessa solidão imunda.
Né não? Não?
Caio chorando.

De promotor a réu. De holofote a apagão.
De inferno a céu. De plateia a atração.
Julgando todos os que choram
numa iludida presunção
de quem ainda não viu nada da vida.