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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quando Desci pra Cá

Quando desci pra cá,
Vi uma fonte que bravejava som.
Vi um horizonte multicor
ah, que beleza, ah que beleza.

Quando desci pra cá não signifiquei muita coisa, mas.
Tinha jogo de cintura pouco. Pra lidar com eles.
Metas que não se bastavam. Ou se bastavam demais.
E haveria de ter metas? Teria que?
Estive confuso
Quando desci pra cá.

Culpa de quem eu não decorar minhas palavras?
Culpa de quem meu sangue corroer suas noções?
                           - pois sangro palavras.
Culpa de quem se eu surgi e incomodei?
Culpa de quem eu ter de reformular as frases?
                           - que esse mundo pede isso.

Quando desci pra cá, 
Mantive-me quieto,
Falei às vezes, quando se dirigiram a mim.
E mantive-me quieto. 
Pra não gastar o jogo de cintura, que não tenho muito.

De resto, fico aqui, 
brincando de montar versos.

Só não me julgue sem sonhos.
É que tenho muitos.
Que eu suei cada dia, atrás deles.
Quando desci pra cá.

(reticências)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um carro e um avião

Fotografia: Zek Andrade
  O que mais marcou foi um instante. Ele estava parado, olhando um avião que vinha passando baixo. E um carro, que passou em sua frente. E o instante em que o avião e o carro ficaram um sobre o outro, simetricamente encaixados.
  Que beleza! O carro, ser terrestre, o avião, ser aéreo. Distintos, mas ali conectados. Meios de transporte, cada um com sua capacidade, ambos seguindo, a velocidades diferentes. Mas ali...
  Um carro que continuaria seu caminho por terra, um avião que continuaria pelo ar. Pra onde iriam? Que diferença isso fazia? Se estivessem indo pro mesmo lugar, chegariam lá. Se não, estavam ali, conectados agora. Ali, tudo pareceu ter sentido. Toda a raiva e frustração do dia, da semana, do mês deixaram de existir. Por menos orgânicos que fossem, o carro e o avião se completavam ali, naquele instante. E se lembrou tanto da essência das coisas. De pássaros e flores, de ser o que se é. Um instante tão prosaico, mas tão poético.
  O carro uma flor, o avião um beija-flor. E tão poético como é um desses beijos foi aquele instante. O beija-flor tem tanta magia, tanta beleza própria! E isso não tira de forma alguma a beleza da flor, exuberante. É um instante de troca, onde o beija-flor propõe espalhar o pólen a troco de um pouco de substância. O beija-flor se satisfaz, a flor se multiplica.
  Ele não sabia o que sentir, o que comentar. não havia nada para ser comentado. Um instante tão épico como aquele não era pra ser visto por todos. Ninguém que o compreenderia. Louco... o chamariam. Que o chamassem!
  Supitou no seu coração um fogo que não era usual. As decisões que há tanto tempo o incomodavam, percebeu que já as tinha tomado há muito, que o que o angustiava era a espera do momento certo para agir. Percebeu o quanto era imediatista ao esperar esse momento chegar. E que o Tempo não segue os padrões humanos, reserva um momentinho pra cada um.
  Abrandaram-lhe os medos, as dúvidas, os pesos. E ele era passos de dança naquele momento, era liberdade. Era algo além de si. Um instante de contemplação que lhe tirou a tensão de um dia-a-dia um bocado sufocante. 
  Agora era ele mesmo. Livre de todos os preceitos, temores e moldes. Podia se estender a qualquer lado, de qualquer forma. Mas o que lhe tinha acontecido? Que estava tão cabisbaixo, encarando a vida com tanto medo? Os poréns eram dele, existiam independentemente do que acontecesse. Mas por que motivo isso lhe incomodara?
  O instante passou. Logo o alinhamento se desfez. O carro e o avião passaram a ser coisas distintas novamente. O beija-flor voou. E ele ficou ali, emudecido, tentando compreender o tamanho do acontecimento.

(...)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Incomunicação desabada

Fabiano Alvez em O Adorável Desastre
Mas, diga-me.
Quando foi que as coisas já feitas começaram a fazer tanto barulho
que nem posso ouvir o que tenho a dizer?
Quando foi que a saudade bateu forte a ponto de me desvanecer?
Saudade de algo que nem tive...

É porque as coisas vieram fáceis?
Por eu não ter tido muito tempo de sonhar?
Tive...

Suprimo um choro, suspirando.
O mundo de repente ficou tão embaçado.

Estar aqui passa a não fazer sentido.
Olhar além também não.
O amor à vida me consome, ainda assim.

Mas que vida eu amo? Nem acredito no que tenho a dizer...
As coisas já feitas, pelos de antes
barulharam tanto que me confundiram.
O que tenho a dizer não chegou até mim.

sábado, 7 de março de 2015

Gizá

A voz dela era sacudida.
Era ambígua em sua mais notória repiquitude.
E era demônio.
Tencionava ir além da conta, e não voltar.
Como um Gizá.

E, demônio, era além.
Era todos e todos éramos ela.
Mais que isso, éramos todos diluídos
Na mesma densa solução.

Os tendões nossos se destinavam.
Ao céu!
E tensionavam.
Ao chão!
E eram VERGONHOSOS querida.
E, balbuciados, os desejos nossos
DECEPCIONAVAM

E ela vinha.
E sacudia o mundo com um universo colorido em caleidoscópio.
Estado efêmero
mudança rápida
ela vinha
vinha vinha vinha vinha
e nos levava a ter certeza de que após a passagem dela tudo voltaria a ser,
simplesmente
como era antes.

(...)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Quando fomos, já nem sabíamos quem éramos

Claude Monet
Aparentasse ou não, sentia-se consumido de estranha indignação.
Quando pôs-se a olhar, todo o fato lhe doeu.
E se consumiu de merecida indignação.
Que lhe bastasse o sorriso nos lábios de uma criança!
Mas não: ousava surgir num novo âmbito da descoberta pessoal.
Que, quando quis se difratar em vários, sendo ainda o mesmo,
foi avisado do perigo de ser tudo o que quisesse ser.
Aí se consumiu de estridente indignação.
E suas palavras se fundiram em outras tantas...!
Que quando se difratou, ele não pensou.
Mas, no sim ou no não, seria vários.
e não sabia do perigo de não voltar a ser quem era antes.

Aparentasse ou não, ele lutava com e contra indignação.
Subindo mais e mais níveis.
Que, na verdade, nem mesmo importava se
aparentasse ou não.
E subindo, foi pensando.
E, no topo, nada mais havia a desconstruir.
E era só horizonte à sua frente.
E na subida, se cansou. Suou. 
E suas lágrimas rolaram desalmadas.

Aparentasse ou não, agora era pó.
Já consumido de obsoleta indignação.
E quando revirava e revirava na leve cama do ar, 
viu que sua intenção nunca fora muito metódica.
E que sua vida tinha ficado no meio de tudo, 
difratada como luz.
E se consumiu.
Da mais sublime indignação.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Cena de Paz

  Ar. Puro. Vento fresco. Os únicos sons audíveis eram o crepitar do fogo e o rumorejar da água. E sons noturnos que silenciavam as palavras. A montanha fazendo uma exuberante margem no horizonte. Por cima de tudo a gloriosa lua.
  A postura dele não era de quem estava rancoroso, apesar da recente briga. Não era de êxtase, apesar da recente reconciliação. Como haveria de ser? Naquele lugar, não havia como sentir nada por muito tempo a não ser amor. Amor pelo mundo. Pelo céu. Pela lua. Pela terra, pelo mato. E um pelo outro também, claro. Contemplação. Ali, naquela lagoa, o ambiente era, pura e simplesmente, propício para amar. O amor plácido e calmo de quando tudo flui de verdade. E o contemplei. Parado, contemplando a imensidão à sua frente. O vento lambia-lhe suavemente os cabelos e a bermuda. Suas mãos paradas junto ao corpo não demonstravam a habitual ansiedade.
  Conexão, essa seria a palavra. Conexão com o mundo, com algo mais antigo e maior que nós, humanos. Conexão com tudo o que era óbvio e, ao mesmo tempo misterioso. Há quanto tempo não sentia isso? No trânsito caótico, na lida repetitiva, no cinza da minha cidade não havia a menor possibilidade de qualquer pausa. Era cama, despertador, escova de dentes, carro, rádio, semáforo, semáforo, semáforo, garagem, escrivaninha, papéis, papéis, papéis, carro, semáforo, chuveiro, cama  e tudo novamente. Aqui não. Tudo o que eu sentia era paz. E o convidei a sentir comigo.
  A cumplicidade que tínhamos não era apenas um com o outro. Era com tudo ao nosso redor. Lembrei-me da pedra, uma que havia achado há trinta metros do nosso acampamento. Ela se inclinava até a água e submergia levemente. Um lugar especialíssimo
  Então a maravilhosa ideia me ocorreu. Caminhei até ele e toquei em seu ombro fiz um gesto convidativo com a cabeça. Ele assentiu e sorriu. Naquele momento, não era preciso palavras para nos comunicar. Comecei a andar em direção à água e ele me seguiu. No caminho parei. Peguei uma grande folha redonda de um arbusto. Ele me olhou interrogativamente. Eu paguei sua mão e nos abaixei até o chão.
  -Olhe e veja alguma pedrinha, ou pequeno galho que goste. - disse eu.
  Para exemplificar, eu mesmo o fiz. Peguei uma pedrinha redonda. Ele sorriu e fez o mesmo. Um pedaço de galho.
  Chegando à tal pedra, eu dobrei a folha e coloquei sobre ela os objetos. Ele entendeu a ideia e me sorriu o mais belo sorriso do mundo. Juntos, nos abaixamos e pousamos delicadamente o barco improvisado na água.
  O vento encrespava a superfície da água e esta refletia euforicamente a luz do luar.
  E era aconchegante.
  A lua nos observava, ali abraçados, e senti que ela nos acolheu e nos convidou a fazer parte daquilo tudo. Nos convidou a sentir e ser com ela.
  E aceitamos.
(...)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

COMPLITUDE

Espuma de nuvem.
Canto de corredeira.
Borboleta no vento.

É a satisfação do desafio cumprido.
E a conexão com o início de tudo.
A imensidão projetada há milhões de anos.
A vida que se renova!

Nada como sentir-se pequeno
por ser parte tão ínfima
e imenso
por apenas ser parte desse todo.

É a face feminina de Deus.
Estar aqui.
Homem e homem.
Ser e ser.
Espinho e areia.

Senta e sinta!
O sol que te vive!
A lua que te beija!
A estrela que te infinita!
A montanha que te agiganta!

Ser uma alma que se permite absorver
tudo de bom que flui.
E que, rastejando como um bebê,
começa a ver a conexão das coisas.
Agora, o tempo dilui o som do rio.

(...)

sábado, 27 de dezembro de 2014

Vívido


Cara Tilde,
Francamente. O que aconteceu com esses azuis nesse Natal? Essas luzes tão fortes e tão azuis até me atrapalharam de sentir o clima natalino esse ano. Quem foi que disse que cor de Natal é azul? O Natal é vermelho! Aconchegante, quente. Ou dourado, glamoroso, rico, brilhante. Até pra gente que é pobre, faz a gente se sentir rico. Quem sabe a gente abra uma exceção pras luzes multicor, que são, a seu modo, charmosinhas.
Mas azul-boate? De forma alguma, nunca foi. E essa droga de cidade está toda decorada com essas luzes escrotas.
Essas ruas confusas... Muita idênticas! Muita casa igual! Será que se esqueceram de tentar personalizar as coisas? Acho que ninguém tem tempo pra isso nesses dias. Essas luzes desnecessárias. Esse verão quente... Essa obsolescência programada que mata qualquer coitado que queira se manter atualizado. A coitada da Cotinha, da loja, vive juntando dinheiro pra comprar esses celulares novos. Bobagem dela, tem mais coisa na vida. Crueldade usarem o nascimento de Jesus pra aumentarem as vendas. Se bem que tem o décimo terceiro, se não aumentassem as vendas, não iam conseguir pagar a gente. De onde vem todo esse dinheiro que esse povo arruma no fim do ano? Viagem, Natal, virada de ano, salário, imposto. Eu que não sei, não tenho isso. Devo o salário do mês que vem...! Olha, sinceramente, estou mesmo é cansada. Com tanta coisa pra fazer nem vi o fim de ano chegando, logo eu, que sempre fui inteiramente clima natalino, a vida toda. O que me pesa nem é isso, é a frustração, sabe.
Digo, o que fiz nesse ano? Passou e nem sequer percebi! Mudei quem sou? Não. Comecei alguma faculdade, como disse que começaria? Também não. Nem estudar pra concurso não estudei. Fiz o meu Ensino Médio muito bem, numa escola boa. Saí pra casar e quebrei a cara. O que me salva é a leitura. Estou é até hoje presa naquela porcaria de loja, empregada escrava de ricaços que nem sabem que eu existo. Eles sim! Eles que devem ter um Natal magnífico, com direito a perus assados e aquelas frutas charmosas do oriente... Macadâmias, uvas passas, sei-lá-zinhas. É isso mesmo, não é?
Ainda tive, nesse fim de ano, a tal Complicação. Os dias que passei internada foram desgastantes e horríveis...!
Você se lembra do Natal que a gente distribuiu sopa para os moradores de rua? Aposto que esses ricaços não sabem o que é isso. Foi bom. Parece que, quanto mais simples, mais verdadeiro.
O que aconteceu, hein? Bom, sei que, nesse momento, acabando de escrever esse email pra você, eu vou me arrumar e arrumar Toninho e sair pra passar Natal com Gustavo e seus parentes. Ao menos tem Gustavo na minha vida. É um bom companheiro. Faz tudo pra agradar a gente e eu também faço pra agradar ele. E é até bonito, acho que demais pra mim. Mas deu na telha dele noivar com uma mulher como eu, só resta aceitar. Só vou ficar esperta, pois não sofro mais como sofri com Wanderlei. Dona Vitória, mãe dele, se tornou também a minha mãe e é muito boa pra mim.
Bruna, da loja, diz que eu sou recatada demais, fria demais, que minha boceta deve ser congelada. Disse que eu me tratasse, cuidasse do cabelo, tirasse essas saias jeans horríveis, que nem sou religiosa e coisa e tal. Que eu devo até ficar bonita se me arrumar. Disse que eu devo ter feito macumba ou passado café na calcinha pra amarrar Gustavo. E que desse graças a Deus por ter segurado ele “até agora”. “Até agora”! que ordinária. Fica é com inveja. E não tiro a saia jeans, eu gosto!
Toninho se curou da caxumba. Está um menino forte e esperto. Fez sete anos. Graças a Deus, ele entende a dificuldade da mãe e não dá muito trabalho. Se dá super bem com Gustavo e é a única pessoa que ainda me faz sentir o clima natalino. Acho que ele vai amar o tratorzinho que comprei pra ele.
Sinto sua falta. Tenho certeza que por aí está tudo bem. Conforta-me saber que, assim que eu clicar Enviar, esse email vai chegar a sua caixa de entrada. Inquieta-me saber, que você nunca vai ler. Já se foram dois anos, querida Tilde, e eu ainda não me acostumei com a ideia de que você acabou debaixo de um ônibus... Nunca vou me acostumar. Não devia ter ido tão cedo...!
Mas a vida segue. Um dia melhora, se não piorar.


Atenciosamente, C. L.
(...)