Me disseram que a vida ainda não sabe o que quer da gente. É por isso que eu não consigo realizar nada do que me proponho. A vida fica na frente, essa vagabunda. Chamo-me Robsenvaldo e não gosto de colocação enclítica, apenas a escrevo assim porque me disseram que é o certo. Sempre faço as coisas porque me disseram que é certo. Mas, recordando agora, já fiz muita coisa que as pessoas me falaram pra não fazer. Só que eram coisas pequenininhas, nada tão contrário a tudo. Talvez um parcialmente contrário por exemplo pegar uma das ruas sem ser as indicadas. "Sua avó fazia colchas de casal com retalhos e cinco por cinco centímetros..." sussurra uma voz no meu cérebro. Eu sei que ela quer dizer que "Existe o efeito bola-de-neve-que-desce-o-morro." ou que, mais precisamente "De boas intenções o inferno está cheio."... Não suporto mais esse assunto, desculpem. Ah, o meu nome se pronuncia só Rosenvaldo...O "b" quem pôs foi o meu pai, por algum motivo que não faço ideia qual é. Imagino que seja algo como raiva de mamãe, porque eles tinham brigado assim que minha mãe acabara de me parir, pois ela insistia que ele me registrasse no cartório naquele exato momento e ele queria esperar pra ver ela dar o peito pra mim pela primeira vez. Dizem que as mães têm que estar tranquilas na primeira sugada do nenê, mas a minha não estava. Talvez por isso eu seja assim. Falando em "eu"... não espera, eu estava enumerando os motivos de meu pai ter me registrado com um "b" no meio do nome. Então... Um era raiva de mamãe e o outro motivo provável era uma raiva contida, tímida, que ele guardava desde o Ensino Infantil. Eu sei que caçoavam dele - o nome dele é Flantropício - então prefiro ignorar essa parte. Afinal... É só um "b"... Está ali enfeitando um pouco a palavra, rebuscando um pouco. Isso não te interessa, eu sei. Mas vou contar. Simplesmente porque preciso contar. Voltando a quando eu disse "Falando em 'eu'..." há, no máximo dois minutos (se tiver demorado mais que isso, me desculpe, meu amigo, mas você tem que aprender a ler mais rápido...), vamos continuar: Falando em eu, eu descobri que você está me lendo há tantas linhas e não sabe nada sobre realmente quem eu sou. Não sabe se sou negro, branco, alto, gordo, magro, baixo. Não sabe a cor dos meus olhos, cabelos, dentes e roupas. É isso mesmo. E aposto que já está me imaginando de alguma forma. Não interessa. Você sabe algo sobre mim sim - muita coisa, na verdade... Aposto que se ler com atenção vai perceber. E é isso que demora: Perceber. Quando você deixa passar... Não tem mais volta. Bom, não te interessa. Não tenho culpa de me chama Robsenvaldo, nome registrado por meu pai, por um motivo desconhecido. Sabe que sou neto de uma senhora que faz colchas de casal com retalhos e cinco por cinco centímetros. Sabe que eu sou complexado por não conseguir cumprir nada do que proponho. E assim seguimos. Já sabe muito sobre eu, Rosbenvaldo, pro meu gosto. Muito mesmo. Está na hora de trocar de máscara, com licença...
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
Reportagem Motivacional
-Então vamos ver se sou aprovado: "Martinho Gusmão é um famoso engenheiro, atualmente muito bem sucedido e feliz. O retorno financeiro é tão bom que dá para ele bancar uma das mais caras escolas de São Paulo..."
-Fique quieto, apenas escute. Continuando: "...numa das mais caras escolas de São Paulo. Martinho mora atualmente numa casa com o valor estimado de R$150mil, na área nobre da cidade. Mas nem sempre foi assim. Nasceu na minúscula cidade de Funil, lá no Sul da Bahia, onde as pessoas sofrem desumanamente com a seca..."
-Ei, Funil não é tão minúsculo assim! E nem tão seco!
O outro ignorou:
-"Numa viagem que a nossa equipe fez a Funil, constatou que a própria prefeitura da cidade era estimada num valor menor que 90% das casas de São Paulo capital. Vimos pessoas fracas e subnitridas, com a qualidade de saúde, higiene e educação extremamente precárias." - Nessa hora, vamos exibir uma reportagem com a repórter Vaneuza Raíba, ela foi a Funil...
-Funil não é tão miserável assim! Vocês devem ter ido apenas da parte pobre da cidade, não é possível.
-Já disse para apenas escutar, meu senhor. Enfim: "Martinho Gusmão estudou sozinho a vida toda..."
-Minha escola se chamava Colégio Alfredo Afrânio, meu caro...
-"E conseguiu ingressar na faculdade com muito suor. A faculdade que passou, no entanto era distante e sua família era paupérrima e não podia bancar sua viagem..."
-O Colégio Alfredo Afrânio era particular! Está certo que não éramos ricos e por isso não conseguiríamos tão fácil mas...
-"...pois mal conseguia sustentar a si própria."
-Já não disse que...
-"Então, corajosamente, Martinho Gusmão saiu da minúscula cidade de Funil, deixando pra trás um calor infernal, uma infância e uma história de vida, sem medo de enfrentar o futuro. Nenhum de seus parentes ou amigos o apoiou e por isso teve que vir de carona durante todo o percurso..."
-Tudo bem, caro repórter. Só vou dizer uma vez: esse aí não sou eu.
-Meu amigo Martinho, é bom você cooperar, ou essa matéria não irá ao ar nem hoje nem nunca.
-Pois sim! Se esta matéria era sobre mim está um tanto distorcida! Ninguém dessa produção sequer me perguntou se eu tive algum apoio!
-Se insiste... Você teve algum apoio para vir para São Paulo, caro Martinho?
-Claro! Todo mundo me apoiou por lá.
-Todo mundo?
-É!
-Até seu pai?
-Sim.
-Até sua mãe? Mães geralmente querem os filhos mais perto delas...
-Não, minha mãe foi muito liberal. Me apoiou muito.
-Ninguém deixou de te apoiar?
-Não.
-Aposto que tinha algum colega na escola que não te apoiou. Forçe sua memória...! Um rival, algum invejoso.
-Tinha o Carmo Carlos, ele era ignorante e nunca...
-Aaahh... Então haiva alguém sim! Continuando: "Nenhum de seus parentes ou amigos o apoiou e por isso teve que..."
-Mas era apenas o Carmo Carlos!
-O senhor disse que ele era ignorante e que nunca. Quando uma pessoa nunca, ela representa um forte percentual na história de alguém, sabia?
-Nunca o que?
-O senhor disse que o moço nunca. Não disse? Pois é. Eu te falei. É aproximadamente 100% de participação em qualquer história quando uma pessoa nunca. Compreende? Continuando: "Pelo seu esforço, Martinho Gusmão é um dos mais reconhecidos engenheiros do país."
-Olhe, perdi a paciência. Estou longe de ser um dos mais reconhecidos engenheiros do país! Retire meu nome disse e vá procurar outra pessoa para fazer essa entrevista.
Martinho se levantou, muito enraivecidamente e, tentando não ser grosso com ninguém, voltou pra casa.
E assim que ligou a televisão a reportagem sobre ele estava acabando de passar. Uma frase dele, falada por ele, gravada, porém há mais de uma semana, encerrava a notícia: "Minha história foi difícil. É por isso que recomendo a todos que se esforçem muito na vida!"
E assim que ligou a televisão a reportagem sobre ele estava acabando de passar. Uma frase dele, falada por ele, gravada, porém há mais de uma semana, encerrava a notícia: "Minha história foi difícil. É por isso que recomendo a todos que se esforçem muito na vida!"
Estranho terem que mudar toda a história dele para fazer alguém se sentir motivado na vida...
(...)
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Porque o mundo parou
Todos estavam para lá de bêbados quando decidiram se levantar.
Assim que o primeiro deles fez isso, se arrependeu. A tontura tomou conta dele como o amor tomou conta de Romeu ao ver sua amada pela primeira vez, tomou conta dele como a disenteria toma conta de alguém com o estômago fraco que come salgadinhos demais na festinha de um ano de seu sobrinho. O infeliz aventureiro, que tentara de todas as formas permanecer em pé, gritou, inconsequentemente:
–Eita! Alguém pare o mundo!
Um dos seus amigos riu, outro tentou se levantar para esmurrá-lo à toa, outro fez um gesto obsceno que ele fazia quando viam qualquer fêmea de mamífero bonita, mas outro realmente tentou parar a rotação da Terra; cravou seus dedos no chão da praça em que estavam e começou a fazer força para o lado que imaginava ser o lado contrário à rotação. Gemeu, fez força e nada. O que estava em pé já caíra novamente e tentou ajudá-lo, se juntando a ele para puxar a Terra.
Um dos amigos – o do gesto obsceno – disse, consultando seu celular:
–Seus idiotas! O que faz vocês acreditarem que a Terra está girando para esse lado? Tenho um aplicativo de bússola no celular, puxem exatamente para o lado oposto; pro Leste!
–Claro que não babaca! A Terra gira da esquerda pra direita, ou seja, de Oeste pra Leste! Temos que puxá-la pro Oeste para fazer ela parar!
–Ah, então é pro lado de lá! – disse e apontou. Nesse momento, o que tinha pedido para pararem a Terra já tinha se cansado e disse:
–Já estou melhor, caras, não precisa mais parar o mundo...
–Cale a boca.
–Tá...
–Mas venha nos ajudar!
Os três juntos puxaram a terra pro Oeste. Puxaram e gemeram, bufaram e sujaram os dedos. Os outros dois se juntaram.
Os cinco juntos puxaram a terra pro Oeste. Depois desistiram e começaram a gargalhar.
Rolaram de rir até que, inesperadamente voaram. Foram jogados para o Leste a uma velocidade de mais de 1500km/h e não viram a hora que morreram.
Assim que o primeiro deles fez isso, se arrependeu. A tontura tomou conta dele como o amor tomou conta de Romeu ao ver sua amada pela primeira vez, tomou conta dele como a disenteria toma conta de alguém com o estômago fraco que come salgadinhos demais na festinha de um ano de seu sobrinho. O infeliz aventureiro, que tentara de todas as formas permanecer em pé, gritou, inconsequentemente:
–Eita! Alguém pare o mundo!
Um dos seus amigos riu, outro tentou se levantar para esmurrá-lo à toa, outro fez um gesto obsceno que ele fazia quando viam qualquer fêmea de mamífero bonita, mas outro realmente tentou parar a rotação da Terra; cravou seus dedos no chão da praça em que estavam e começou a fazer força para o lado que imaginava ser o lado contrário à rotação. Gemeu, fez força e nada. O que estava em pé já caíra novamente e tentou ajudá-lo, se juntando a ele para puxar a Terra.
Um dos amigos – o do gesto obsceno – disse, consultando seu celular:
–Seus idiotas! O que faz vocês acreditarem que a Terra está girando para esse lado? Tenho um aplicativo de bússola no celular, puxem exatamente para o lado oposto; pro Leste!
–Claro que não babaca! A Terra gira da esquerda pra direita, ou seja, de Oeste pra Leste! Temos que puxá-la pro Oeste para fazer ela parar!
–Ah, então é pro lado de lá! – disse e apontou. Nesse momento, o que tinha pedido para pararem a Terra já tinha se cansado e disse:
–Já estou melhor, caras, não precisa mais parar o mundo...
–Cale a boca.
–Tá...
–Mas venha nos ajudar!
Os três juntos puxaram a terra pro Oeste. Puxaram e gemeram, bufaram e sujaram os dedos. Os outros dois se juntaram.
Os cinco juntos puxaram a terra pro Oeste. Depois desistiram e começaram a gargalhar.
Rolaram de rir até que, inesperadamente voaram. Foram jogados para o Leste a uma velocidade de mais de 1500km/h e não viram a hora que morreram.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Cacos
Fabulosa vidraça que quebrou,
Quando houver boas ideias, que me envie!
Que mande em mim mesmo!
Angústia de cacos.
Vidrinhos nos olhos da criatura da bocarra.
Gosma.
Gigante.
Pressurizada.
Úmida.
Seca.
Cacos de ideias se espalham pelo chão.
Não há mais maneira de catar.
Já estão do tamanho de hemácias.
Do meu sangue, que escorreu
Que esguichou
Que jorrou.
Angústia nova.
São ambas angústias diurnas, sãs.
Angústias que só existem devido à pressão, à robotização
humana, jamais contida.
Onde jamais,
Jamais.
Haverá descanso.
domingo, 28 de julho de 2013
O Caminho Ascendente de Flores
Seguia. Eu estava bem comigo mesmo. Acho que era efeito de minhas incontáveis noites mal dormidas. Não sei mais. Eu só sabia que estava bem. O lugar... ele não importa. É personagem secundário nessa trama. Nunca me importei muito com isso mesmo. Só sei que estava bem cheiroso. Eu sentia um perfume tão singular que não se podia comparar com coisas que eu conheço. Um perfume que humano nenhum consegue comparar com coisas que conhece.
Algo que importa, é que eu voava. Absurdamente, eu via o chão passando sob os meus pés sem encostá-los no chão. Acho que poucos dos humanos já tiveram a sensação de voar e os que tiveram não conseguem imaginar a diferença de voar em modelos aerodinâmicos com a de voar do jeito que eu estava. Eu praticamente sentia asas saindo das minhas costas e trabalhando num alto metabolismo para me fazer levitar.
Qual não foi o meu espanto ao ver um enxame de abelhas ao meu redor. Eram tantas, e, por alguma razão, eu conseguia distinguir cada uma, cada ser.
E algo mais de estranho... o que era? Eu tentava me lembrar e não conseguia. Veio então a ideia forte na minha cabeça: Eram todos machos, como eu!
Foi então que finalmente percebi que de alguma forma eu estava transfigurado em abelha. Eu era abelha, uma abelha operário a coletar o pólen das belas flores. Então era esse o cheiro que eu senti naquele momento.. cheiro do pólen! Ah...! Como é bom...
Não consegui mais pensar. Um hibisco maravilhosamente grande estava à minha frente e eu fui até o estame. O pólen... Ah! É algo indescritível.
Se meu relato vai ficar menos crível eu não sei, mas, de alguma forma, puxei assunto com uma abelha operária ao meu lado. Posso dizer que as abelhas se comunicam de alguma forma, apesar de mesmo eu tendo sido abelha, não conseguir dizer exatamente qual.
Ele não me disse seu nome, as coisas entre as abelhas não funcionam bem assim. Mas comentou sobre o maior mito das abelhas: O Caminho ascendente de Flores. Disse que era uma infinidade tão grande de rosas que jamais precisaríamos trabalhar novamente.
Depois de dias, um rumor começou a correr pela colmeia: Alguém vira o Caminho.
Todos nos alvoroçamos. Ao querer saber mais sobre o rumor, descobrimos que o Caminho Ascendente estava no lugar por nós mais temido: a Cidade.
Mas todas as operárias gostariam de virar lenda chegando ao Caminho Ascendente de Flores.
Partimos. Todas as operárias decidiram ir em grupo.
Era quente. Difícil voar. Caótico. Complicado. Poluído. Foram morrendo, uma a uma. E eu, mesmo quase não mais conseguindo controlar as minhas asas, continuava a voar.
Então vi.
Uma infinidade imensa de botões de rosa, que subia até o infinito.
Ao olhar para os lados, percebi que era a única abelha que sobrevivera, e nem era tão abelha assim. Talvez fosse abelhudo quando humano, mas isso não vem ao caso; o pensamento já se esvaíra. Não conseguia pensar em absolutamente mais nada. Era como a sensação com o hibisco milhões de vezes aumentada. Cada unidade desse milhão era uma flor. Subi. Coletei o pólen de uma e recuperei as energias. Subi mais. As asas ajudavam. Subi mais alto do que um arranha céus. Então vi que minhas asas não me respondiam mais.
Eu não conseguia voar mais.
Então caí como abelha toda a quilometragem que havia subido, que parecia agora ainda maior.
O ar cortava e doía. Arrancou minhas asas. Me queimou.
O chão me abraçou.
Ao morrer como abelha, renasci humano.
Meu corpo infantil continuava o mesmo.
Minhas pequenas mãos com os dedos roídos, meus joelhos ralados, meus braços magricelas, meus pés descalços, meu calção e minha regata listrada, tudo por algum motivo enlameado. Minha tia saiu da cozinha com seu rolo gesticulando para que eu voltasse, o bolo de cenoura que eu tanto gostava estava pronto. Tia Nastácia não era tia de fato, mas cozinhava tão bem que eu a chamava assim. Vovó Benta estava lá dentro e minha prima caipira em algum lugar perto daquele riacho brincando com sua ridícula boneca de pano recheada de marcela.
Agradeci pela chance de ter sido abelha. E fui andando para comer o bolo de cenoura, que nunca se compararia ao pólen. Ao olhar para trás vi a imensa roseira que vovó cuidava com tanto esmero e sorri. Eu tinha certeza que agora era uma lenda entre as abelhas.
(...)
Foi então que finalmente percebi que de alguma forma eu estava transfigurado em abelha. Eu era abelha, uma abelha operário a coletar o pólen das belas flores. Então era esse o cheiro que eu senti naquele momento.. cheiro do pólen! Ah...! Como é bom...
Não consegui mais pensar. Um hibisco maravilhosamente grande estava à minha frente e eu fui até o estame. O pólen... Ah! É algo indescritível.
Se meu relato vai ficar menos crível eu não sei, mas, de alguma forma, puxei assunto com uma abelha operária ao meu lado. Posso dizer que as abelhas se comunicam de alguma forma, apesar de mesmo eu tendo sido abelha, não conseguir dizer exatamente qual.
Ele não me disse seu nome, as coisas entre as abelhas não funcionam bem assim. Mas comentou sobre o maior mito das abelhas: O Caminho ascendente de Flores. Disse que era uma infinidade tão grande de rosas que jamais precisaríamos trabalhar novamente.
Depois de dias, um rumor começou a correr pela colmeia: Alguém vira o Caminho.
Todos nos alvoroçamos. Ao querer saber mais sobre o rumor, descobrimos que o Caminho Ascendente estava no lugar por nós mais temido: a Cidade.
Mas todas as operárias gostariam de virar lenda chegando ao Caminho Ascendente de Flores.
Partimos. Todas as operárias decidiram ir em grupo.
Era quente. Difícil voar. Caótico. Complicado. Poluído. Foram morrendo, uma a uma. E eu, mesmo quase não mais conseguindo controlar as minhas asas, continuava a voar.
Então vi.
Uma infinidade imensa de botões de rosa, que subia até o infinito.
Ao olhar para os lados, percebi que era a única abelha que sobrevivera, e nem era tão abelha assim. Talvez fosse abelhudo quando humano, mas isso não vem ao caso; o pensamento já se esvaíra. Não conseguia pensar em absolutamente mais nada. Era como a sensação com o hibisco milhões de vezes aumentada. Cada unidade desse milhão era uma flor. Subi. Coletei o pólen de uma e recuperei as energias. Subi mais. As asas ajudavam. Subi mais alto do que um arranha céus. Então vi que minhas asas não me respondiam mais.
Eu não conseguia voar mais.
Então caí como abelha toda a quilometragem que havia subido, que parecia agora ainda maior.
O ar cortava e doía. Arrancou minhas asas. Me queimou.
O chão me abraçou.
Ao morrer como abelha, renasci humano.
Meu corpo infantil continuava o mesmo.
Minhas pequenas mãos com os dedos roídos, meus joelhos ralados, meus braços magricelas, meus pés descalços, meu calção e minha regata listrada, tudo por algum motivo enlameado. Minha tia saiu da cozinha com seu rolo gesticulando para que eu voltasse, o bolo de cenoura que eu tanto gostava estava pronto. Tia Nastácia não era tia de fato, mas cozinhava tão bem que eu a chamava assim. Vovó Benta estava lá dentro e minha prima caipira em algum lugar perto daquele riacho brincando com sua ridícula boneca de pano recheada de marcela.
Agradeci pela chance de ter sido abelha. E fui andando para comer o bolo de cenoura, que nunca se compararia ao pólen. Ao olhar para trás vi a imensa roseira que vovó cuidava com tanto esmero e sorri. Eu tinha certeza que agora era uma lenda entre as abelhas.
(...)
sábado, 13 de julho de 2013
Túmulo Subaquático
De cara com a morte, rio e penso na ironia de tudo aquilo; o tal Narciso, quem me emprestou o nome, também morreu. Ficou de cara com a morte, no caso do conto mitológico, a cara da morte sento a própria cara refletida na lagoa. Morreu também por gostar demais de si mesmo. Como eu.
Parecia
improvável que eu seguisse a trilha do nome que me apelidaram. Ele deve ter
pensado nisso quando me disse o meu nome. Com certeza. Seu Noé sabia de tudo.
Pensei que ele tivesse me apelidado disso para tornar o meu problema óbvio para
mim mesmo e eu mesmo tentar consertá-lo, não para lançar-me essa maldição.
Mas agora
já estou aqui. A morte, transfigurada nessa onda gigante já está aqui. O que
fazer? Rio-me novamente, um riso frouxo, descontrolado, louco, histérico.
E o que
ficava da minha existência? Nada.
Das três
coisas que, segundo a cultura popular todo homem deve fazer, não fiz nada. Não
tive filhos, não escrevi um livro, e o que escrevi ninguém jamais lerá, visto
que meus únicos escritos estão no velho notebook, que, se já não pifou, logo
será engolido pelo mar.
Rememoro
os momentos que vivi. Os amigos e, posteriormente, paixões que tive. Todos
pareciam tão eternos...
Retiro o
último cigarro do bolso e mesmo sob essa tempestade, tento acendê-lo, quase inconscientemente.
Depois tenho a mesma crise de gargalhadas histéricas.
Minha
mente divaga e eu penso que devo estar parecendo um velho pirata, exceto,
talvez, pela parte que o rum na mão do pirata é cachaça na minha e o barco
pirata é barquinho a vela vagabundo alugado no porto tosco com um velho que
realmente parecia um pirata.
Delírio ou
verdade, vejo uma luz. Um holofote apontado diretamente para minha cara. Que
ótimo – penso, sarcasticamente – a salvação.
Fato é que
eu não quero ser salvo. Não vivi nada que valesse a pena ser lembrado.
Felizmente, a onda já está grande o suficiente para ser perigosa a aproximação
do helicóptero.
-Que se
quebre sobre mim, que acabe logo com minha infame existência, ó onda. – digo.
Ergo um
brinde, um último ato descompensado.
-VENHA! –
grito. A onda dá a impressão de estar parada, escrotizando ainda mais a minha
existência, logo no final dela – NÃO ME OUVIU? VENHA DE UMA VEZ! – berro.
E ela vem.
Com força. Ávida. Cruel.
Descendo
pro meu túmulo molhado e solitário, não abro mão de pensar: “Acho que viver
valeu. De alguma forma, acho que valeu a pena”.
E fecho meus olhos para nunca mais.
E fecho meus olhos para nunca mais.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
O Rei
Num entardecer hilariante com os últimos
cacos de céu se tingindo de rosa, acontecia uma festa. Cada indivíduo se
embebedava de óleo diesel e fumava farinha ao som doce do coral de flores. Era normal. Era legal. Todos faziam.
Era um
cenário deplorável, visto que todos na festa se encontravam em tal ângulo de
alteração psicológica que mesmo com toda a bela música floral para ouvir, o
ambiente não deixava de exalar cheiro de ressaca e arrependimento. Corpos
tortos e ternos desalinhados traziam os piores sentimentos à superfície;
inveja, ódio, vontade de falar errado e amor deixavam tudo inebriante. Nesse
cenário, um rei se apresenta. “Sou o rei” dizia.
Ninguém
acreditou.
Ninguém se importou.
E o tédio assolou aquele lugar.
Depois disso, o rei se irritou e foi-se embora.
E o povo continuou a beber óleo diesel e fumar farinha, como era antes.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Quanto à família
O que é a família? Já começo a questionar, desde que ouvi o termo "família tradicional". Me pergunto se a família que conta é aquele conjunto de pessoas com quem você convive, se é aquela família que compartilha o mesmo sangue, se é aquela formada pelas pessoas que você ama. Me pergunto se um animal pode ser considerado família, se um irmão de sangue pode não ser. Porque, se "família tradicional" se refere a um modelo básico (pai, mãe e filhos apenas), ela não inclui mutas famílias atuais.
Na iminência de perder o meu cão, um ser que tem um amor incondicional por mim, vejo finalmente o quanto também eu o amo. Ao observar o conviver de alguns amigos numa república universitária, percebo que aquilo pode, sim, ser considerada uma família. Toda a discussão sobre homossexuais e adoção de crianças por eles também deve ser citada. Assim, cai ao chão toda o conceito de "família tradicional".
O aspecto familiar é estritamente cultural. É algo criando pelo homem, de forma nenhuma é natural. Animais não constituem família. Existem famílias poligâmicas no oriente aceitas pela cultura local, coisa que, para nós do ocidente é abominável. Vemos que o homem criou toda uma rede intricada de relações familiares, algo que consideramos que é da nossa natureza, mas não é. É por isso que qualquer forma de amor é válida. É por isso que família não é quem é do seu sangue e sim quem você ama, quem está ali por você nos momentos difíceis. É aquela pessoa em quem você deposita a sua confiança sem receio.
É claro que a chamada família tradicional não deve ser subestimada, desde que os valores pregados por ela não sejam absurdos, não sejam prejudiciais a ninguém. As pessoas têm que abrir a cabeça para novas opções. Uma sociedade de jovens de mente aberta leva a um futuro melhor para todos.
Acredito que a família que deve ser considerada é a formada por quem se ama. Um amigo de quem você tem saudade. Um animal de estimação com uma relação de amor. Um familiar que compartilha do seu sangue em quem você confia. E que venha um bom futuro para todo mundo. Um futuro onde qualquer um pode ser feliz.
(...)
(...)
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